quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sustentabilidade



Ainda tenho que continuar a escrever sobre o assunto do post anterior. O desistir de lutar.

(Não sei se escrever é um acto libertador, ou simplesmente masoquista, em que se mexe na ferida até não doer mais. Mas por vezes sinto que a dor serve como purgante. Se essa ideia não é verdade, então está muito bem entranhada.)


Quando alguém desiste de viver existe o lamento, veraz, de que se perdeu uma vida. Que se abdicou de um bem precioso, inigualável e irrepetível. Penso que é mesmo assim. Igualmente, fica um vazio atroz para quem amava essa pessoa. Quem desiste, pode não pensar nisso, mas é muitíssimo importante para alguém, mesmo com os seus complexos problemas.


Mas, a questão é: será que quem quer morrer está a sentir que deita fora a sua vida? Será que a sua vida, num certo sentido, ainda existe? Ou estará somente a desejar terminar as funções vitais que mantêm um corpo a funcionar? O que é a vida?


Posso falar apenas do que sei pelo que vivo e do que sinto. Não tenho nenhuma outra presunção. Não me cabe analisar o assunto pela visão das ciências humanas. O meu reles testemunho é dizer que sei o que é acordar e amaldiçoar o dia emergente; sei o que é invejar a notícia de que alguém morreu e não termos sido nós. Digo-o com apatia. Nunca tentei o suicídio, mas desejei, em algumas alturas, que a morte chegasse pelos seus próprios meios. E porquê? Porque achava que não vivia, apenas tinha um corpo a funcionar. “O sonho comanda a vida”, diz António Gideão. Se não existe um sonho, somos um exército sem comandante, condenado à debandada perante a batalha da existência do dia-a-dia. Perdemos inevitavelmente.


Lembro-me, ao andar nestes devaneios, quando era pequeno e ia à quinta dos meus avós. Eles tinham um cão amarrado a uma casota; nunca estava à solta. Era alimentado, bem cuidado, mas estava sempre preso a uma curta corrente. Como gostava muito de animais, ia frequentemente para junto dele fazer-lhe festas. Ainda tentei ir passear com ele, mas recebi um forte aviso para não o fazer. Assim, compensava-o por passar algum do meu tempo com ele. O bichinho quando me via aproximar já entrava em êxtase. Delirava cada vez que lha passava a mão na cabeça. Eu pensava, ao olhar para ele nesse estado, como seria horroroso viver assim. Passar a vida preso, embora com o necessário para sobrevivência física. Para a minha mente infantil essa situação era horrível.


Isto para chegar ao ponto anterior. O que é a vida? Considero a vida mais do que o existir. Tem que existir um sentido, algo que a sustente. Se o corpo deve receber nutrientes saudáveis para funcionar bem, a vida, ou chamemos a alma, também. Tenho que saber porque acordo toda a manhã, tenho que saber que contribuo para a felicidade de alguém, tenho que sentir que faço algo, mesmo que pequeno seja, para este mundo ser melhor. São frases comuns e banais, mas incontornáveis. Tenho que sonhar, desejar, ansiar, ter vontade de lutar. Saber quem sou e agir em harmonia com esse conhecimento. Se não for assim, sou um autómato.


Reconheço que a vida nos coloca “correntes” para nos tornar eficientes e parte de uma sociedade cinzenta e produtiva. (Produtiva para quê, a propósito?) Reconheço que quem sonha é incómodo aos demais, com a sua inquietação e delírios. Reconheço que areias movediças da memória, vez não vai, puxam para a auto comiseração. Assim, luto para sentir-me vivo. Para sonhar um pouco. Sem destruir a vida de outros.


No caso que referi, não sei o que aconteceu. Possivelmente ele chegou à conclusão que não tinha margem para sonhar, para caminhar, ou então que o preço ia ser incomportavelmente elevado. Parece que na vida existe por vezes uma espécie de contabilidade. Existe uma coluna para o que faz querer desistir e outra para o que faz querer continuar; uma espécie de ter e haver emocional. Quando as razões positivas são suplantadas pelas negativas, alguns acham que deixa de existir razão para sustentar um corpo. Sim, um corpo, porque sentem que a vida já não existe. Por outro lado, quando existe uma razão para viver, mesmo o mais letal perigo é enfrentado com a força de um titã. Existe fé, razão, sonho, vontade. Isso é a vida. Sem um alicerce assim, por mais pequeno que seja, é dificil existir força.


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Em memória de alguém que não conheci


Esta é uma música que gosto bastante. Além do som, tem uma letra tocante. Hoje queria dedica-la a alguém que não conheci, mas que a sua história cruzou-se inesperadamente comigo recentemente.


Trata-se de alguém que desistiu. Normalmente não se recorda pessoas que desistem, porque essas são encaradas como o elo mais fraco, as que não deixam nada para lembrar. Mas, como diz a letra desta música, por vezes, por detrás de uns olhos, que podem ser azuis ou não, existe muita coisa que ninguém vê ou dá valor. Nesta história real, o acto de desistir tem, pelo menos para mim, uma enorme carga emotiva.


A história em traços gerais. Um homem conhecido na comunidade como excelente pessoa. Casa. Algum tempo depois, começa um inexplicável percurso de dependência que lhe degrada a saúde e a família. Suicida-se. Após a morte, sabe-se que lutou contra a sua homossexualidade. Fim da história.


Este caso, condenado de todos os ângulos, pelos que o conheciam, tem em mim um espectador silencioso e dolorosamente sensível. Não o conheci por pouca margem de tempo. Mas, se calhar, sei de cor toda a via dolorosa que percorreu, toda a solidão que passou e todo o desespero que acumulou até o triste epílogo.


Quero recordá-lo. Quero dedicar-lhe esta canção. Poderia ser uma melhor, talvez mais digna e imponente para a razão que é. Mas, só me ocorreu esta.



No one knows what it's like
To be the bad man
To be the sad man
Behind blue eyes.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Mas de onde apareceu tanto dinheiro?

Muito já se falou e se continuará a falar sobre esta monumental crise financeira. Especialistas divagam sobre as causas, os avisos que existiam e a justeza das soluções encontradas. Prognósticos sobre o que nos espera ecoam insistentemente.

Mas, no meio desta revoada de informação, um par de questões surgiram-me logo que vi a disponibilidade de vários governos abrirem os cordões à bolsa e avançarem com colossais quantias para salvar empresas em nome do bem público.


Se os governos já há muito tempo estavam a cortar nas despesas e a afirmar que, por exemplo, não podiam sustentar certos serviços sociais devido à falta de dinheiro, onde foram agora desencantar esta maquia?

Se era tão difícil ajudar o desenvolvimento de países pobre e famintos e encontrar soluções para acabar com a poluição devido a ser muito dispendioso, como se consegue agora rapidamente encontrar estas generosas verbas?



Eis quando me deparo com esta informação, via blogue O país do Burro:

“Há 925 milhões de pessoas em todo o mundo que passam fome e talvez haja outras tantas severamente desnutridas. Para acabar com este flagelo, a FAO estima que seriam necessários 30 mil milhões de dólares. Quer dizer, para que ninguém no mundo morresse de fome ou de sede, seriam necessários apenas 40 por cento daquilo que o BCE injectou nos mercados financeiros apenas num só dia, em 29 de Setembro último.
Será normal que os cidadãos se questionem sobre este contraste imoral e asqueroso. Que se perguntem como é que a fome e a sede de 1000 milhões de pessoas não seja suficientemente importante para que os bancos centrais contribuam para o seu financiamento. E que se questionem sobre de onde sai tanto dinheiro para salvar os bancos os ricos.”


O post apontava para um documento publicado on-line pela espanhola Fundación Sistema. Vale a pena ler. Não porque seja bonito. Porque se vê a porcaria de mundo em que se vive. Ou melhor, se vê a porcaria de gente que existe e que controla assuntos vitais deste planeta.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O que interessa é o resultado!

Numa cidade, viviam duas mulheres que tinham o mesmo nome: Antónia. Uma era freira e a outra, taxista. Quis o destino que morressem no mesmo dia. Quando chegaram ao céu, São Pedro esperava-as.

- Qual é o teu nome?
- Antónia
- A freira?
- Não, a taxista.

São Pedro consulta os seus apontamentos e diz:

- Bem, ganhastes o paraíso. Levas esta túnica de linho que foi tecida com fios de ouro. Podes entrar. A próxima... O teu nome?
- Antónia
- A freira?
- Sim.
- Bem, também ganhastes o paraíso... Levas esta túnica de linho. Podes entrar.

A religiosa diz:

- Desculpe, mas deve existir algum engano. Eu sou Antónia, A FREIRA!
- Sim, minha filha, e, como já te informei, ganhastes o paraíso. Levas esta túnica de linho...
- Não pode ser! Eu conheço a outra Antónia, Senhor. Era taxista, vivia na minha cidade e era um desastre! Subia nos passeios, batia com o carro todos os dias, conduzia pessimamente e assustava as pessoas. Nunca mudou, apesar das multas e repreensões policiais. E eu, eu passei 65 anos pregando todos os domingos na paróquia. Como é que ela recebe a túnica de linho com fios de ouro e eu esta túnica simples?
- Não há nenhum engano - diz São Pedro. É que, aqui no céu, adoptamos uma gestão mais eficiente...
- Não estou a entender!
- Eu explico-te: Já ouviste falar de Gestão por objectivos? Agora o que conta são os números, e temos observado que nos últimos anos, cada vez que tu pregavas, as pessoas dormiam. E cada vez que ela conduzia o táxi, as pessoas rezavam muito!


Resultado é o que importa ...

sábado, 4 de outubro de 2008

Manjar

A primeira vez que o vi foi numa passagem por Moura. Numa rua estreita encontrei uma pastelaria que proporcionou refugio e uma promessa de água fresca face ao calor abrasador que então se fazia sentir. Curioso como sou, logo reparei nele. Como um rei, na sua taça de vidro e rodeado dos outros doces comuns como se fossem a sua corte. Perguntei no balcão qual era o nome daquela misteriosa iguaria. Manjar, foi a resposta.

Provei. Gostei. E quando, esporadicamente, passo por esta jovem cidade alentejana, é ponto de paragem obrigatório. O manjar e eu temos sempre que colocar a conversa em dia.

Mas, voltando àquela primeira vez, a história ainda não terminou. Ao passear pela cidade, dei de caras com um pequenino livro que estava num expositor – penso que foi na Biblioteca Municipal - quase feito artesanalmente, mas que o titulo me cativou: Cozinha de Moura. Era da autoria de uma senhora chamada Maria da Conceição Segurado, que pelos vistos tinha fama de excelente cozinheira. Desfolhei-o. Este livrinho continha um conjunto de várias receitas típicas do concelho. Claro, que encontrei a página que desvendava o segredo do Manjar. Comprei-o.

Confesso que por mais que se faça a receita, nunca sabe tão bem como quando se degusta o manjar em Moura. Para quem interesse um dia fazer a comparação, aqui vai a receita, conforme regista o livro. Poderosamente simples e altamente calórico. Prontos, não é para comer todos os dias! O que o torna até mais fidalgo.



Manjar

250 g. de miolo de amêndoa

250 g. de açúcar

Miolo de pão (mais ou menos 250 g. digo eu)

6 gemas


Coloca-se o açúcar ao lume com duas ou três colheres de água, deixa-se ficar em fio e junta-se a amêndoa picada, mexe-se muito bem. À parte coloca-se numa tigela o miolo de pão e deita-se água a ferver mexendo até ficar em papa.

Junta-se a papa de pão à amêndoa e ao açúcar, mexendo sempre. Batem-se 6 gemas e sem retirar o tacho do lume deitam-se as gemas em fio mexendo sempre.

Finalmente deita-se o manjar numa travessa e decora-se com drageias prateadas ou coloridas.



quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Os cavaleiros do Apocalipse