O ciclo que se encerrou teve que ver essencialmente comigo. Uma espécie de limpeza; ou de arrumação; ou até mesmo uma espécie de guerra civil, para esclarecer definições, ou, por outras palavras, para chamar as coisas pelos nomes. Na minha mente.
Como hei-de explicar?
Começo por recordar algo muito simples, mas que a certa altura foi uma pequena, mas providencial pedra no sapato. Pessoalmente, dou muito valor à amizade, acho que deve ser cultivada com empenho e não como cromos que juntamos e colamos numa caderneta. Certa vez li uma daquelas frases bonitas, uma citação, que dizia mais ou menos isto: “Um amigo é alguém com quem pensamos em voz alta”. Parei e pensei: comigo isso não acontecia. Não me atrevia a pensar em voz alta com nenhum dos meus amigos; só a mera ideia disso arrepiou-me transversalmente. Pouco tempo depois, sem conseguir deixar de pensar nessa frase, comecei a construir um amigo imaginário a quem eu contava tudo sobre mim, descomplexadamente. Comecei, sem dar por isso, a sorrir. Era uma ideia tão doce, com uma leveza enorme, que quase chorei de ser apenas uma imaginação minha.
Esse episódio fez-me chegar à conclusão que algo de profundamente errado passava-se comigo. (Era mais uma; eu parecia um íman de tragédias pessoais, de traumas bizarros e de complexos misteriosos. Caramba, como o universo devia estar na altura do meu nascimento! Devia ter existido um alinhamento maldito de planetas que nem o Hitler, se fosse vidente, conseguiria engendrar!)
Como qualquer pessoa de bom senso concorda, estar sem amigos, amigos íntimos, daqueles com quem podemos desabafar sem travões, é terrível, é doentio, é completamente demencial.
É apenas um pequeno relato, mas ilustrativo, do estado da minha mente. Por isso usei o termo guerra civil. Nada era linear e fácil. No fundo sabia o que eu era, mas meticulosamente formei uma linha de defesa contra isso. Não aceitava durante as horas racionais do dia o que no sossego da noite a minha cabeça pensava. Argumentava e esgrimia argumentos comigo próprio. Sentia-me continuamente esmagado pela sensação de culpa e frustração. Não sabia o que decidir senão seguir o que a maioria fazia; enquanto me diluísse na multidão estaria a salvo, pensava eu. Mas, não tinha paz nem verdade.
Assim o meu dilema shakespeariano - versão caseira – era: falar ou não falar, eis a questão.
Tinha que decidir. Ou falar ou desistir.
Por fim a nota de rodapé, escrita em letras pequeninas; o “mas” que existe em todos os discursos triunfalistas.
“Caminando”, diz o poeta. “Porque não?”, digo eu.

