A notícia do massacre perpetrado na Alemanha por um rapaz de 17 anos, levou-me a recordar algo que tinha em mente, um dia destes, compartilhar aqui. Tratou-se de uma determinada situação que, quando a presenciei, perturbou-me, tal como aqueles pequenos e repentinos enjoos que nos fazem parar, esticar cegamente o braço para sentir um apoio e perscrutar rapidamente algo parecido com um banco para nos sentarmos por uns instantes.
O local em causa é a sala da internet sita na Biblioteca Municipal. É eficientemente bonita, bem equipada, e normalmente cheia de jovens em idade escolar. Enquanto espero uns poucos minutos por uma vaga, observo de relance os monitores. Poucos estão a estudar, a fazer pesquisas ou a consultar a sua caixa de e-mails. Jogos. Simplesmente a jogar on-line.
(“E qual é o problema?” - autocensuro-me. Lembro-me de que também gosto de perder tempo a jogar; aqui os pobrezitos simplesmente estão a aproveitar o tempo depois da escola e antes de irem para casa, onde farão os trabalhos de casa e estarão com os pais. “Deixa lá de ser um cota rezingão!” - repito de mim para mim.)
Indicam-me o computador 8. Lá vou. Aqui não existe privacidade; é um local público e não está preparado para navegar em páginas, digamos, mais reservadas. Tudo bem, na maior! Enquanto espero pela abertura das minhas páginas, olho, como quem não quer a coisa, para o monitor vizinho ocupado por um pré-adolescente - a jogar, para não fugir à regra. Fixo a minha atenção um pouco mais no jogo onde está embrenhado. Não é por ser um jogo de guerra; isso já não é nenhuma novidade.
Simplesmente fico aluado perante os detalhes do jogo. Neste, em particular, não oferecerem ao jogador apenas realísticos equipamentos e cenários; oferecem-lhe, como o esplendor possível, todos os requintados detalhes que acompanham um intenso massacre. A perfeição do sangue espalhado na parede após o disparo, a visão do corpo mutilado e retalhado após o projéctil ter feito o seu trabalho; as expressões agonizantes da vítima, antes e depois do disparo. E, tem que ser um jogador empenhado, pois níveis mais desafiadores esperam os audazes. Claro que sempre existe a dificuldade acrescida de se acumular corpos nas ruas.
Acordo. A minha atenção fixa-se agora nos jogadores reais. É interessante ver os petizes a sorrirem de prazer ao acumularem pontos conquistados em assassinatos virtuais. E, virarem-se para outros colegas, nos outros computadores, e a orgulharem-se, em alto e bom som, dos troféus de guerra já conseguidos. Para ser fiel ao que escuto e para reproduzir exactamente as referidas conversas teria que incluir as expressões “matei-os todos”, “despedacei-o” e “dei-lhe cabo da cabeça toda”, entre outras pérolas.
Volto-me para o meu monitor, e trato da minha vida. O enjoo chegou, ainda bem que estou sentado.
Por favor, não me digam que isto é normal; não me chamem retrógrado por ficar espantado; não invoquem a necessidade de eles gastarem testosterona; não comparem isto com as guerras de índios e cowboys que tínhamos nas ruas usando pistolas de pau.
Não vou ao extremo de acreditar que estes miúdos quando saírem do jogo vão matar alguém na rua ou em casa. Sei que muitas pessoas adultas gostam deste tipo de jogos e não têm inclinações assassinas. Sei que não existe uma relação matemática entre o tempo que se gasta nestes jogos e os assassinatos cometidos cada dia.
Mas, também não me digam que este jogos são completamente inócuos. Dizer que não fazem absolutamente nenhum mal às cabecinhas das crianças é como dizer que os jogos pedagógicos também não servem absolutamente para nada de positivo. O que tem poder para construir também pode destruir. O que pode ajudar também pode prejudicar.
O que me choca é achar-se normal passar a mensagem – mais ou menos subliminar - a jovens em formação, de que o massacre virtual de outros humanos é um desporto onde até se pode ser campeão. O que me deixa a pensar é se não estamos a dar-lhes acriticamente um conceito do pouco valor da vida humana. O que me faz sentir um aperto no peito é que se fosse um jogo onde se massacrassem animais talvez mais gente se indignasse do que um onde se esmigalha – literalmente - seres humanos virtuais.
Desculpem a minha ingenuidade, decerto estou a reflectir um popular conceito empírico, em que falta a análise profissional de investigadores da mente e do comportamento humano. Mas, é culpa do enjoo.
(Estou sentado, já passa…)