Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso como este ribeiro manso em serenos sobressaltos como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam como estas árvores que gritam em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que sonho é vinho, é espuma, é fermento bichinho alacre e sedento de focinho pontiagudo que fuça através de tudo Em em perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho é tela é cor é pincel base, fuste, capitel que é retorta de alquimista mapa do mundo distante Rosa dos Ventos Infante caravela quinhentista que é cabo da Boa-Esperança
Ouro, canela, marfim florete de espadachim bastidor, passo de dança Columbina e Arlequim passarola voadora pára-raios, locomotiva barco de proa festiva alto-forno, geradora cisão do átomo, radar ultra-som, televisão desembarque em foguetão na superfície lunar
Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança
Pedra Filosofal, António Gedeão
Para recordar as razões que causaram uma revolução. Para recordar aqueles que então, durante décadas, não pararam de sonhar. Para que nunca se esqueça a luta pela verdadeira liberdade. Para que todos os que continuam a sonhar não se cansem. Nunca mesmo...
Foi então que senti como era imensa a distância que eu teria de percorrer, se quisesse dominar o meu futuro. Mas, nesse mesmo instante, despedaçou-me uma súbita revolta mais alta e mais forte do que quantos destinos houvesse. E disse para mim: «Hei-de fugir, hei-de vencer. Que ninguém tenha pena de mim. Hei-de rebentar com tudo. Destruído de peste. De opróbrio. De trampa. Mas hei-de vencer.»
Não sabia como iria cumprir a minha jura. Mas estava certo, violentamente, de que ela tinha a verdade do meu sangue.
Hoje o post é dedicado á Radio Comercial - passe a publicidade!
Não é que hoje, precisamente hoje, ás 19 horas e qualquer coisa, passa esta música que andava a vagear na minha cabeça? E logo esta, precisamente esta versão?
Ontem vivi um fim de noite brutal ao aperceber-me de uma notícia que não esperava. Como a manhã veio a confirmar, faleceu alguém que durante algum tempo comentou no meu blogue. Começei por conhece-lo pelo nick “Catatau”, mais tarde fiquei a saber que se chamava João Manuel.
A única convivência que tive com ele aconteceu nas caixas de comentários do meu blogue. Não sabia como ele era (conheci a sua aparência hoje, no blogue do Pinguim), não sabia quais as suas qualidades e defeitos, não sabia como era a sua vida e as suas lutas diárias. Apenas sei que ia semeando palavras no meu “cantinho”.
Palavras essas que por umas vezes me faziam sorrir, outras vezes, pensar. Deram-me em certas ocasiões um “pequeno grande” ânimo para as horas seguintes do dia. Foram apenas palavras, é certo… Mas mesmo palavras podem fazer em algumas ocasiões uma grande diferença!
Estive hoje a rever algumas delas…
Emocionei-me com as últimas palavras que deixou como comentário num meu post. Ironicamente com o titulo “Adeus”.
“É um adeus de catarse ou é um adeus a um cordão quebrado? É um adeus-ó-vai-te embora ou é um adeus-eu-vou-ali-e-já-volto?
...É um adeus a horizontes, não é? Virão outros, mais promissores e, provavelmente, mais aconchegantes. Sinto que não andarás por aqui, mas sei que virás sempre.
Sócrates: um abraço até ao teu regresso! ;)”
Depois dei comigo a pensar nos seus amigos, familiares e com quem ele compartilhava a vida. É horrível.
Perdi as forças nas pernas e tive que me prostrar. Humilhado, vencido e revoltado perante a insensível, cruel e trituradora coisa a que nos habituamos a chamar de vida.
Os protagonistas deste mês, na minha banda sonora, são os Blue October com “Hate Me”.
Assim, de repente, parece um título um tanto ou quanto doentio para uma canção, até mesmo feinho, não é?
Normalmente desejamos ser amados, apoiados ou simplesmente entendidos, mesmo vivendo dentro da nossa controversa armadura de vida. Obviamente. Mesmo quando ousamos falar com nitidez das coisas tristes da (nossa) vida, sempre deixamos, no final, escapar um cintilante, mesmo que seja finíssimo, raio de luz esperançoso reflectido por um alvo dente encaixado no nosso sorriso.
No entanto, apesar do título, esta música não me brinda sentimentos gratuitos de depressão ou auto comiseração. Gosto do estilo musical, da voz temperada com uma sedutora rouquidão e da letra ajustada à realidade.
É que todos sabemos, e sentimos, que os nossos dramas pessoais, mesmo que dissimulados, afectam a quem queremos bem, aqueles que nos rodeiam. Nunca estamos isolados na peleja com os nossos dilemas, mesmo que dependa unicamente de nós próprios fazer alguma coisa.
Essas epopeias iniciam-se por desejamos orgulhosamente demonstrar atitudes nobres, mas a certa altura damo-nos conta da gigantesca, pegajosa e kafkiana teia de aranha que nos envolve. Quando a certa altura, o cansaço dos tempos - e dos sucessivos fracassos, convenhamos - começa a definhar as nossas articulações, paramos; dizemos para nós próprios que é apenas para momentaneamente recuperar forças que nos permitam continuar. Mas a verdade é que, em surdina, esperamos impacientemente que, neste momento de fraqueza, chegue o aracnídeo - afinal dono e senhor deste viscoso mundo que nos prende - e que misericordiosamente nos ferre. Nos injecte aquele veneno que, mesmo que arda como o inferno nos primeiros segundos, trará posteriormente uma promessa de paz e de esquecimento.
…
Em certas ocasiões, observamos disfarçadamente pelo canto do olho, que quem nos rodeia espera, polidamente, um resultado. Anseiam nos seus pensamentos que aconteça qualquer coisa; porque afinal também estão desgastados. Tentam empenhadamente entender o que não entendem, tentam ajudar sem saber como o fazer. Demonstram uma enorme empatia, e também um árduo amor, solitariamente apoiados na sua esperança e, combatendo as dormências e as vozes negativas, lá continuam.
(E nós? Continuamos a olhar para aquela teia, e cortamos um fio, depois cortamos dois, e a seguir cortamos três; depois já perdemos a conta a quantos cortamos e reparamos que estamos praticamente na mesma; depois calculamos o que acontecerá se em vez deste cortarmos aquele; depois paramos um pouco porque já estamos ofegantes; depois reparamos com os olhos cansados que ainda falta tanto…)
Apetece então dizer-lhes: Hate me! Deixem-me! Vivam as vossas vidas e deixem de estar presos a esta peçonha que é só minha. Cortem-me da vossa memória como se corta um membro gangrenado e salvem a vossa vida. Chorem e façam um luto – se o quiserem - durante uns dias, uns meses, ou até uns anos. Mas depois sigam em frente.
…
Há alturas em que não revolto-me minimamente perante a vida.
Há alturas em que reconheço que ninguém à minha volta tem a culpa.
Há alturas em que aceito que não existe nenhuma cabala divina responsável pelas minhas circunstâncias.
Sempre achei uma deliciosa ironia existir um dia consagrado ás mentiras. Parece que existe uma razão histórica para que tal aconteça. (Wikipédia dixit)
É interessante numa sociedade em que a mentira é uma arte popular e requintada, necessitarmos ter um dia para podermos assumir em voz alta: "Hoje vou dizer uma mentira!" Deve ser uma forma de terapia colectiva...
Sempre tenho uma discussão muito pessoal, de mim para mim, sobre o assunto. Meias verdades e omissão de factos, serão também mentiras?
Bem, para terminar vou deixar aqui uma verdade para reflexão:
"Vive a tua vida como se fosse o último dia, pois um dia acertarás!"
(OK! Nada tem a haver com o assunto, mas li-a ontem e apeteceu-me citá-la...)
Do not go gentle into that good night, Old age should burn and rave at close of day; Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right, Because their words had forked no lightning they Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright Their frail deeds might have danced in a green bay, Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight, And learn, too late, they grieved it on its way, Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight Blind eyes could blaze like meteors and be gay, Rage, rage against the dying of the light.
And you, (...) there on the sad height, Do not go gentle into that good night. Rage, rage against the dying of the light.
Dylan Thomas, 1952 ("Ripado" do blogue Açafate)
...É um adeus a horizontes, não é? Virão outros, mais promissores e, provavelmente, mais aconchegantes. Sinto que não andarás por aqui, mas sei que virás sempre.
Catatau
E as nuvens apareceram toldando o Sol daquela tarde! E os medos que sempre houve ampliaram-se no outro eu que és tu!
Dá-me a tua mão, e juntos, gritemos a força que queremos possuir para ir mais além, vencer mentiras e silêncios, conquistar o Sol e o Mar!
E quando amanhã recordares o temor de hoje, que seja num abraço terno e não no vazio do teu próprio sofrer…