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sexta-feira, 14 de março de 2008

É um tango delicado


No Jornal Público saiu uma reportagem cujo tema despertou a minha curiosidade: “Amar demais também pode ser um problema”.

Passo a fazer “zapping” sobre a notícia:

"Se sofres quando amas...Se amas o homem errado...Se amas de maneira errada...Se amas alguém emocionalmente distante... Procura-nos! MADA (Mulheres que Amam Demais Anónimas) pode ajudar-te!". Estas são apenas algumas das muitas formas de amar erroneamente, inspiradas no livro de Robin Nonwood, “Mulheres que Amam Demais”, enunciadas no panfleto do grupo. O tom da escrita e os conselhos de auto-ajuda podem soar a seita religiosa. Mas não. O MADA é uma espécie de alcoólicos anónimos, onde o vício é não o álcool mas o amor.
(…)
“Quando questionada sobre o que é uma mulher que ama demais Madalena diz não concordar com o nome do grupo: “considero o nome MADA bastante incorrecto, não é amar demais, é amar de uma forma doentia. Viver a vida mais virada para o outro do que para nós”. Segundo o psicoterapeuta Aníbal Henriques, “Mulheres que Amam Demais é um nome bonito que não estigmatiza, é um chapéu colorido e aberto que permite às pessoas escapar a patologias redutoras. Amar demasiado não existe, pode amar-se, sim, de forma desajustada ou desfavorável aos intervenientes”, conclui.”
(…)
“Não têm necessariamente de ser vítimas de violência doméstica ou ter companheiros adictos. Podem ser mulheres com uma família normal mas que têm um sentimento obsessivo de posse para com o marido ou os filhos”, explica Madalena.
(…)
Uma característica comum a todas estas mulheres é a necessidade de controlar os outros e de acharem que têm o poder para modificá-los, refere uma nota informativa do grupo. Madalena viveu com um alcoólico e programava a vida do companheiro para que as recaídas não fossem sucessivas. Anulou-se em função de uma vida que não era a sua.
(…)
O equilíbrio consiste em ir ao encontro do outro, sem o perder nem me perder a mim próprio”, afirma Aníbal Henriques ao tentar explicar o que poderá estar na origem deste tipo de comportamentos compulsivos. “É um tango delicado. Dançar de forma agradável para o outro sem o pisar não é nada fácil”, metaforiza o psicoterapeuta.
(…)
“nem sempre podemos falar em doença até porque todos, em algum momento da nossa vida, ‘amamos demais’, amamos de forma errada, queremos receber do outro não o que este nos dá mas o que necessitamos receber. É uma condição inerente às relações humanas”.
(fim da citação)


Isto de um sentimento essencial á vida poder estar na base de desequilíbrios emocionais é um assunto que dá “pano para mangas”. Recordo-me de ler há algum tempo a situação de mães que “amam” tanto os seus filhos que os medicam a fim de provocar neles doenças para os terem sob o seu controlo e cuidado o maior tempo possível.

“All you need is love”, diz a canção e com razão. Será que a privação de receber/dar amor faz surgir estes desequilíbrios? Será que o desespero faz sentir que vale tudo para se conseguir amar/ser amado? Será essa obsessão tão grande que segue caminhos auto-destrutivos?

Então, se tudo o que precisamos é amor, se alguém não tem/dá amor, não tem nada. E quem nada tem a perder pode tornar-se perigoso. Para si e para outros.

Receio de que o que vejo claramente como um erro nos outros possa não enxergar em mim. Decerto que não estou a controlar doentiamente alguém por o querer amar muito. Mas, tenho a noção de que reprimir o dar/receber amor de maneira genuína e sincera também não deve fazer bem a ninguém.

O que será pior? Amar de forma errada ou não amar por medo? Entre alguns malefícios, corre-se o risco de se ser insensível e congelar os sentimentos. Ser uma espécie de zombie, um morto-vivo entre o mundo dos sentimentos e o da razão.

Se amar é comparado a dançar um tango delicado, então estou a dançar música folclórica da Sibéria numa fábrica abandonada algures no meio do deserto. Apetece-me criar o HPAEA (Homens cujo Potencial para Amar está Escondido Anónimos).

domingo, 9 de março de 2008

Hoje não é um bom dia

Sou uma pessoa com um monstro dentro de si, ou serei um monstro com uma pessoa escondida?

sábado, 8 de março de 2008

Entalado

Let me apologize to begin with
let me apologize for what I’m about to say
but trying to be genuine
was harder that it seemed
and somehow I got caught up in between

Let me apologize to begin with
let me apologize for what I’m about to say
but trying to be someone else
was harder than it seemed
and somehow I got caught up in between

Between my pride, and my promise
between my lies and how the truth gets in the way
the things I want to say to you
get lost before they come
the only thing that’s worse than one is none

And I cannot explain to you
in anything I say or do or plan
fear is not afraid of you
but guilt’s a language you can understand
I cannot explain to you
In anything I say or do
but hope the actions speak the words they can


(
In Between - Linkin Park)

Nos meus momentos de raiva, de revolta e consequente solidão, as musicas dos Linkin Park conseguem tirar-me algumas lágrimas. O ultimo álbum, um pouco mais calmo e intimista do que o costume, tem letras como esta. Parece que não sou o único entalado entre dois mundos. A diferença, - utilizando com o devido respeito, o titulo do blogue do companheiro Special k – é que não tenho o melhor dos dois mundo. Não tiro proveito nem de um, nem do outro!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Em memória de todos os que continuam a acreditar


Tenho pensado no que Oz escreveu recentemente num seu post onde se debruçava sobre se na homossexualidade pode existir lugar para um compromisso duradouro, ou se simplesmente o normal é uma passagem na vida em que se coleccionam aventuras e fugazes prazeres.

Creio que todos temos ideias claras do que nos dá prazer na vida. Algumas podem ser do tipo platónico, outras mais concretas. Que o sexo é uma fonte de prazer é um dado adquirido. Quando alguém sente a sua sexualidade realizada é feliz. Se o seu perfil é sentir-se bem com alguém do mesmo sexo, é normal desejar satisfazer esse desejo. Afinal, a sexualidade é uma necessidade básica da vida. Ponto assente. (Mais palavras para quê?). Mas, não devo ser o único a achar que um grande prazer na vida vem também de se ter alguém com quem compartilhamos espaço, tempo e emoções. Alguém com quem formemos uma espécie de equipa. Aquilo a que Oz chamou um “príncipe”. Creio que encontrar alguém que seja o nosso intimo e forte aliado na desventura que é esta vida, isso é algo impagável. Ter alguém que seja testemunha de nossa existência. Isso é a essência da vida.

Claro que este ideia está muito mais “colada” ao amor heterossexual. Mas, mesmo isso não é linear.
Um homem pode sentir-se feliz por estar casado com a mulher da sua vida e achar que não necessita aventuras extra matrimoniais. Outro pode amar a sua esposa como uma deusa e achar que ter algumas “saídas” é necessário para a sua vida sexual, sem que isso coloque em causa a sua devoção conjugal. Ainda é bem conhecida a vida cheia de amores passageiros que alguns playboys levam, sem nunca “assentarem”. Dizem que assim é que são felizes.

Mas, no caso dos homossexuais a histórica discriminação e perseguição, fez as coisas serem de outra maneira. Imagine-se a possibilidade de no passado tinham de estabelecer uma vida a dois! Bastava fazer uns biscates de vez em quando e “viva o velho”. Aceito que alguns homossexuais continuem a desejar múltiplos parceiros, sem uma ligação emocional. Outros mesmo sentindo-se ligados mais a alguém, talvez tenham essa veia aventureira do prazer pelo prazer. Claro, que o mundo da homossexualidade como tudo nesta vida não é perfeito. Quem em relação a sentimentos é ingénuo está lixado. Coexiste a superficialidade, exibicionismo e relações descartáveis com a nobreza, a dedicação e o espírito de sacrifício. Saber neste campo minado, encontrar as jóias no meio das pedras é o desafio.

O que então, pode fazer alguém feliz? Se se pode ter uma sexualidade realizada e uma relação estável, não é isso o melhor da vida? O sexo é um prazer momentâneo que se alguém poder juntá-lo a uma relação estável é sem duvida um prazer mais duradouro e significativo. Claro que não vivo no pais das fadas em que toda a gente vive feliz para sempre. Como dizia muito bem Oz, “para se saber reconhecer um príncipe de verdade é preciso ter beijado alguns sapos. E que tal como muitos sapos viram príncipes, muitos príncipes também se tornam sapos.” Acrescento, e quando encontrarem um verdadeiro príncipe, saibam mantê-lo, que nada é garantido.
É a vida!

(...)

“I want somebody who cares
For me passionately
With every thought
And with every breath
Someone who’ll help me see things
In a different light
All the things I detest
(…)
And when I’m asleep
I want somebody
Who will put their arms around me
And kiss me tenderly
(…)

Somebody – Depeche Mode

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Pessoas


Tenho uma paixão por livros. Ainda pequeno, estudante, gostava de ir a uma livraria nos “furos” das aulas e passar lá o tempo a desfolhar livros. Hoje ainda me admira não me terem posto a andar por estar ali a ver livros e não os comprar. Deviam ter pena. (“Coitadinho, tão pequenino e já tão sozinho, quem tem que vir aqui…”) Mas, não. Não era esse o caso. Continuo tão apanhado por qualquer papel que tenha letras e bonecos que se me passam para a mão nem que seja uma publicidade de um hipermercado, acaba a vida á minha volta. Dependências…

Dessa época escolar lembro-me de um livro biográfico sobre Fernando Pessoa. Gostava de ver as fotografias sobre a vida daquele homem magro e tristonho. Folheei-o muitas vezes. Algo me atraía naquela história. Com o tempo fui conhecendo a sua poesia, tentando entender o seu mundo, no fundo, tinha a sensação de que algo na sua escrita tinha a haver comigo. Gosto de ler Pessoa, mas se tivesse que escolher um heterónimo, Álvaro de Campos ganhava o concurso.

Voltando ao livro já referido. Eu olhava para aquelas fotografias e pensava. Se me tivesse cruzado com um homem assim, de figura tão simples e deslavada, nem o notava.

Mas, como rendi-me ao poder da sua palavra escrita, á sua riqueza de expressão, á sua mente prodigiosa.

E tenho eu pensado nestes tempos todos:

Para que lhe serviu? Foi feliz assim? Que grandes questões ele pode responder? Ou simplesmente escreveu porque era a sua natureza escrever?

(Chove. Que fiz eu da vida?

Fiz o que ela fez de mim...

De pensada, mal vivida...

Triste de quem é assim! )

Pessoa consegue expressar de uma maneira grandiosa e eloquente as duvidas que de um jeito mais pequeno também tenho. Reflecte desassombradamente em temas como a verdade, a existência e a identidade.

Mas, que me pareceu um homem triste e perdido neste mundo, parece…(Como eu)

(Quando é que passará esta noite interna, o universo,

E eu, a minha alma, terei o meu dia?)

Isso leva-me constantemente a pensar para que serve o conhecimento. Sou muito curioso, procuro insistentemente respostas, não me contento com o que toda a gente diz.

Mas, sempre há mais e mais para saber. E que respostas tenho?

Não tenho nem um pingo do enorme oceano que Pessoa é, mas entendo bem o seu cansaço da vida. Lembra-me uma expressão popular enuncia que “quem aumenta o seu conhecimento aumenta a sua dor.”

Será porque não há respostas? Será porque elas são infinitas? Sempre existirá um porquê no virar da esquina?

Consola-me que um génio como Pessoa escreva sobre algo que também é a minha preocupação. Bom para mim… (Afinal não sou maluco por pensar nisto)

Mas, para mim cada vez mais está falida a ideia de que tudo neste mundo tem um sentido á nossa medida. Tem que existir um sentido, uma razão, um porquê.

Mas, humildemente reconheço que não temos capacidade de o entender. Parece que somos apenas elos de uma cadeia de eventos que tem que seguir, doa a quem doer.

A natureza está-se completamente borrifando para os nossos sentimentos como humanos, e para as nossas noções de moral e ética. É fria, implacável no seu trajecto. Esmaga quem se atravessa no seu caminho. Os humanos poderiam desaparecer da face deste planeta e o curso da vida continuaria neste ponto de pó no universo.

Porque então temos consciência de nossos sentimentos? Para que servem?

Para sofrermos com a nossa impotência e sentimento de orfandade? Se estamos aqui apenas para passarmos os genes, porque não somos como os animais que o fazem com menos problemas existenciais?

(O único mistério do Universo é o mais e não o menos.

Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.

O que existe transcende para mim o que julgo que existe.

A Realidade é apenas real e não pensada.)

Oh, Pessoa!

Obrigado por falares destes assuntos de uma forma tão bela. Obrigado por fazeres sentir ao comum e ignorante dos mortais, como eu, que as duvidas existências podem ser uma obra de arte.

(O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.

O que há é pouca gente para dar por isso.)

(Este é um desabafo de um completo leigo em poesia de Pessoa. Apenas gosto de saboreá-la e pôr-me a inventar. Cruzei os sentimentos que me desperta a leitura da sua obra com os meus pensamentos. Não pretendo passar por entendido na analise de sua obra que é monumental e digna de sagrada reverência. Sendo ignorante neste estudo, escrevo como pessoa comum a ser iluminada por este génio. Tenham paciência comigo!)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Estou emocionado...


Hoje tive que quebrar alguns hábitos. Interrompi a minha fase letárgica de reclusão e meditação, e escrevi dois posts num só dia. E o culpado? O Sr. Paulo.

Vou eu todo tranquilo da vida dar a minha voltita pela vizinhança e dou com dois prémios no seu blog (FelizesJuntos) atribuídos ao meu Castelo D’Areia.
Ó meu amigo, disto eu não estava á espera. Então eu ando aqui há tão pouco tempo, e, só ando a chorar pelos cantos com a minha crise existencial...
Claro que fiquei feliz (embora ao contrario do Paulo, estou FelizSozinho…) E assim acho que devia improvisar um discurso, tipo “estrela de Hollywood que não está há espera de nada, mas leva um agradecimento escrito numa folha do tamanho de um rolo de papel higiénico”.

Assim, aqui vai:
“Prezada blogosfera, estou imensamente surpreso por esta atenção recebida. Concerteza que nunca esperava esta gentileza. Mas, tocou-me fundo… (esta é a parte em que começo a fungar… e a gaguejar). Assim, desejo dedicar estes prémios. Primeiro, aquele que eu ainda não conheço, mas sei que vai ser especial para mim e eu para ele (esta é a parte em que o pessoal começa a fugir discretamente da sala, não vá o diabo tece-las…)
Também agradeço a quem inventou o computador, a Internet, a electricidade, os blogs, a cadeira onde estou sentado, a secretária, o pastel que comi á pouco, a água que me mata a sede, (bem, é melhor acelerar um pouco a lista…)
E mais, que isto me sirva de inspiração para melhor desempenho neste mundo virtual… (aqui ouve-se uma voz da assistência a gritar: “Agora é que tiveste razão, vê lá se isso melhora…” )
Por fim, … (aqui é a parte em que eu bato com a mão na mesa de cabeceira e acordo!)


Pronto, já acabou a palhaçada.
Muito a sério, obrigado por me teres feito sorrir com a tua lembrança. E para mim é também um voto de confiança.
Como ando aqui há pouco tempo, não sabia dessa faceta dos blogs. Acho que eu ainda não conheço bem este mundo para já distribuir prémios. Os únicos que quero lembrar são todos os que vêem a este local especial para mim, lêem e comentam. Esses merecem a minha nomeação para “Pessoal fixe, mais fixe não há!”
Um BIG BEM HAJAM!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Friends, amigos & companhia Lda – parte 3 (o paradoxo, ou como uma pessoa ás vezes tem vontade de morrer)


Amigos, amigos…
Tudo o que se diz de bom sobre bons amigos é pouco.

Tenho amigos no sentido verdadeiro da palavra… poucos, mas bons! Sou um acérrimo defensor de amizades sinceras e trabalhadas. Esforço-me por ser um amigo leal.

Mas, (quando vem um “mas” a coisa está tremida…) estou incomodado comigo mesmo sobre este assunto. A questão é que não sou completamente sincero com os meus amigos. Sabem tudo de mim, menos… a minha homossexualidade.

Sim, alguém está neste momento a pensar: “Mas, se são verdadeiros amigos, vão compreender e apoiar! Se não o fizerem é porque não são amigos sinceros.” Isso, em parte, é verdade. Mas, existe uma razão para omitir este tema, que não tem a haver com a genuinidade da sua amizade.

Permitam-me começar pelo princípio. O mundo onde eu nasci, cresci e vivo é regido por princípios muito claros. Existe o certo e o errado, o preto e o branco. As fronteiras são claras como a água. Confesso que quando se é novo esse mundo dá-nos segurança. Gostamos dele e queremos defende-lo com unhas e dentes perante um mundo inseguro, assustador e em constante mutação.
Mas, com o tempo, fui compreendendo que a realidade não é assim tão linear e que o que está certo e o que está errado não é assim tão fácil de demarcar. Aprendi ao mesmo tempo que tive confrontar- me com o que se passava comigo, é claro!

Comecemos pela questão do homossexualismo. É apresentado como errado, claro! De início, a ideia é de que quem é homossexual é mau, pervertido, quer chocar os outros, e é descarado. Podia ser o que quisesse, mas escolheu essa opção (malandro…)

Depois, vendo melhor as coisas, a opinião é que afinal podem não ser tão maus. Até existe gente impecável. Talvez seja uma doença, o resultado de problemas na infância ou uma herança genética.
Mesmo essa visão mais… digamos…temperada, não resolve nada. É como dizer: “Sim, ele tem uma tendência que pode não ser por sua escolha. É uma vítima, OK. Mas, tem que disfarçar, esconder ou sufocar. Porque mesmo assim, não pode viver como é. Continua a ser errado!”
É preferível o silêncio… É preferível, a estragar o bom ambiente e os princípios. (Ah, pois, os princípios…)

Este é um esboço do meio onde vivo. Os que são os meus amigos de anos, também.

Assim, o não desabafar com alguém sobre a minha situação tem a haver com a lealdade que tenho a eles. É uma maneira de protege-los de uma situação potencialmente incómoda. Nunca poderiam mostrar simpatia e apoio moral neste assunto sem que fossem "arrastados" comigo. Assim, prefiro sofrer sozinho do que fazê-los ter essa questão entre mãos.

Por isso chegamos ao paradoxo.
Quem me conhece e acompanha há anos, não sabe do meu mais íntimo dilema, aquilo que é o cerne da minha personalidade.
Quem lê este blog conhece o que de mais profundo me vai na alma.
Sem saber a minha cara, os meus defeitos, os meus gostos, as minhas virtudes, as minhas parvoíces, as minhas paixões e os meus tiques. Não devia ser assim. Por isso, tenho mesmo ás vezes vontade de morrer…

Por favor, não me digam apenas que tudo podia se resolver de maneira simples, que bastava não me importar com o resto do mundo. Como posso não me importar em como ficam os meus amigos com as minhas decisões?

Pode ser fácil, pode ser difícil. Isso estou para ver.
O ter falado deste assunto aqui e ter quem o sabe e me entende foi, é, e será importante.
Pelo menos sinto-me mais livre, menos sufocado. Voltei a ter um cheiro a esperança e vontade de viver que já não tinha há algum tempo.
Que por escrever aqui comecei algo que não sei como vai terminar, isso bem verdade é!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Liberdade?

Hoje estou farto. Farto nem sei de quê.
Cada vez que escuto uma retórica “pró-liberdade de escolha” revolto-me. Apetece-me bater em alguém (se calhar em mim mesmo!)

Seremos mesmo livres de escolher o que queremos? Por que escolhemos? Por que somos frustrados quando estamos condicionados?

Por que tenho uma vida que não escolhi? Por que tenho coisas que gostava de mudar em mim e não consigo? Se fosse livre não agia como queria?
Por que tenho que me conhecer e descobrir quem sou e então tomar decisões que me deixem em paz comigo?

Quem definiu as minhas preferências? Alguém quis saber a minha opinião?
Quem escolheu as minhas circunstancias? Quem me deu os dons e os defeitos?
Quem me pregou partidas tão miseráveis?

Liberdade…
Existirá alguém que seja realmente livre?

Existirá é pessoas que podem fazer livremente aquilo que as circunstâncias da vida o programaram a ser. Mas, se isso é liberdade…

Hoje estou farto. Estou farto das circunstâncias da minha vida.
Estou farto de não poder realmente escolher. De ter que me entender e procurar o caminho que devo seguir e não o que queria.

Talvez um dia entenda a minha vida de outra maneira e ache que foi melhor assim. Talvez um dia esteja em paz comigo. Talvez um dia conheça as regras que tenho de seguir para ser feliz e pensar que sou livre.

Hoje não é um bom dia para ser a companhia de alguém. Hoje não é um bom dia para escrever uma pagina de um blog.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

“O poeta é um fingidor”. Será o único?

Todas as pessoas fingem q.b. Se alguém nos mostra a roupa que comprou e que vemos que é feio como o breu, mas dizemos: é giro!

Quem não já foi comer na casa de um amigo e após um repasto intragável e insípido disse: “Que bom! Tens que me dar a receita…”

E estas são, pese o respeito pela moda e pela culinária, coisas insignificantes, decerto. Fingir pode ser uma saída para uma situação socialmente embaraçosa, mas também pode ser um modo de vida para simplesmente sobreviver. Sim, porque dizer aos que nos rodeiam os nossos reais sentimentos pode ser mais que embaraçoso. Pode enviar alguém para o hospital com o desgosto.

Dizer que se sente atraído por alguém do mesmo sexo, em certos meios, é pior do que a morte.

Assim, desde que me dei conta da complexidade do jogo social e familiar, que aprendi a arte do fingidor. Não por gosto. Por estratégia de sobrevivência. Não havia alternativa.

Ás vezes sinto que de tanto fingir, já não sei o que é sincero e o que é artificial.

Tenho a sensação de que fui congelando gradualmente os meus sentimentos. Gradativamente, os relacionamentos com as pessoas começam a não me importa. Aconteça o que acontecer.

Os laços familiares, as amizades, os contactos quotidianos. Parecem apenas personagens de uma peça de teatro onde estou a representar. Ando por andar.

Acho que vou explicar com uma comparação. É como dizer que fui perdendo o paladar. Posso comer o que seja que não me sabe a nada. Alimento-me porque sei que necessito. Mas, o prazer que alguém tem por estar a saborear algo que gosta, ou sentir que certo alimento necessita de mais um acerto no tempero, isso não tenho.

Nos sentimentos perdi o paladar. É esquisito.

No entanto, por vezes sou surpreendido por mim mesmo. Certas situações e certas pessoas fazem despertar esses sentimentos. Parece que é um choque que levo. Alguém que me atrai fisicamente, algum gesto que me agita interiormente, um cenário humano que me sensibiliza. Como que uma mensagem interior que me diz: “Este é o teu caminho, a tua sensibilidade congelada”. (Raios a partam!)

Claro, que se deixa-se guiar por esses impulsos estava tudo estragado. Esses sentimentos têm que ser “maquilhados”. Tem que continuar fechados num armário.

Mas, não adormecem. Continuam a dar sinais de vida como algo que quer sair de dentro de mim.

Ser um fingidor resolve o problema. Temporariamente. E cansa. Estou cansado.

Não sei durante quanto tempo vou ter forças, arte e engenho para continuar assim. Para fingir mais valia ser poeta.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Post scriptum

Alguém, que por algum erro do Google, veio dar a esta página deve estar a pensar que para tanta depressão ia ver um filme do Manuel de Oliveira acompanhado de um ceguinho e a escutar um fado. Acho que tem toda a razão. Eu sou o primeiro a querer falar (digo, escrever) de algo positivo e construtivo para quem queima as pestanas num computador e os euros na Internet.

Mas, tudo tem uma explicação. Tudo tem uma razão de ser.

(Tenho que deitar isto cá para fora.)

Anos de silencio. Ninguém que possa entender o meu dilema. Ninguém que por mais amigo fosse pudesse ter uma pequena solução. Cada um carrega as suas penas como pode.

Mas, aqui posso falar, explicar, gritar. Mesmo que ninguém leia, isto faz bem. Mesmo que esteja detrás de uma mascara, serve.

Quando tudo começou?

Vou começar pela primeira sensação estranha que tive. Bem cedo na adolescência, estranhava que as minhas preferências não eram bem iguais ás dos meus amigos. As meninas bonitas que tanto chamavam a atenção deles a mim não me diziam nada. Fixava a atenção nos do mesmo sexo.

Tinha duas teorias:

Primeiro, visto que tinha sofrido abuso quando criança por parte de rapazes mais velhos, imaginava que o meu cérebro agora a desenvolver a consciência do libido ligava a ideia de rapazes a prazer sexual.

Segundo, podia ser que visto estar em crescimento e muita insegurança sobre a minha imagem, fixava a atenção nos homens que eu achava que seria o modelo do que eu queria ser, fisicamente, quando crescesse.

Pensei que conseguia lidar com esta situação. Aprenderia a ver as raparigas como possibilidade de satisfação sexual e assim “treinaria” o meu cérebro qual cão. (“busca, busca…”)

Também, cresceria, tornar-me-ia um esbelto moço e deixaria de invejar os outros “machos”.

Mas, pelo sim e pelo não, fiz um pacto comigo: Se chega-se aos 20 anos com as mesmas tendências… Acabaria com a minha vida, pois seria uma mancha para a minha família e não saberia lidar com a situação. Antes morrer um que deixar os outros a morrer de vergonha.

Bem, o tempo passou e não cumpri o meu pacto. Tenho angústia de imaginar como isto poderá acabará um dia.

Imaginam o que é a minha vida. Uma fachada completa. Fugas para a frente a todo o tamanho.

Por isso este peso.

Já vi que não sou o único. Talvez seja é dos mais ingénuos a falar do assunto.

(Paciência!)

Assumi que pelo menos não vou mentir a mim mesmo. (Já é um começo…)

Pensar que tenho um problema sem solução deixa-me bloqueado. Não há maneira. Não há fórmula mágica. Não há milagre.

Existe um passo. Este espaço. Passo para quê? Nem eu sei. Talvez um testemunho silencioso, anónimo e ingénuo. Talvez um epitáfio perdido num cemitério virtual.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Castelo de Areia

Verão. Praia. Areia. Eis os ingredientes que em criança me faziam sonhar. Materializava esse sonho em horas dedicadas a construir na areia. Os castelos eram temas obrigatórios. Fascinava-me a ideia de fortaleza, de segurança, de controlo. Bem, mas sabia que primeiro tinha de investir no fosso. Uma primeira linha defensiva contra o inimigo: a maré. Um fosso capaz de conter as primeiras vagas “assassinas”. Depois dos fossos vinha a obra de arte: Um imponente, sólido e atraente castelo. Claro que com a prática ia modelando melhores torres, muralhas com ameias trabalhadas, pontes sobre os fossos, torre de menagem que se preze, e um espaço para mim no interior.

Ainda hoje, quando estou numa praia, a tentação de fazer castelos de areia é grande. Mas, sinceramente, um adulto entretido nesse passatempo, cria uma imagem patética a quem passa… Invejo quem tem filhos e pode, com a desculpa de ajudar o seu petiz, estar entretido nessa magnifica actividade. No meu subconsciente deve haver uma explicação para este meu gosto. Não tenho a certeza de qual é.

Mas, tenho uma teoria: a minha vida agora é um castelo de areia. Disso não tenho duvidas. Vivo num castelo de areia que construí com os anos. Tenho muralhas e fossos meticulosamente colocados. Evito que os outros me surpreendam e me magoem. Escondo atrás de portas trancadas quem eu realmente sou. Mas, não o esqueço, é um castelo de areia. Não é duradouro.
Que vaga o vai deitar abaixo? Quando? Vale a pena pensar nisso?



Ele nasceu para ser o melhor
Seus pais projetaram o futuro ideal
Nada lhes daria mais prazer do que vê-lo crescer bem

Mas naquela manhã encontraram um bilhete
Com palavras de dor e adeus
Daquele menino que agora queria ser alguém

É... pois é, meu bem...
Castelos de areia derretem quando a onda vem

O crente rezou durante toda a sua vida
Para ter um sinal do Senhor
Dias e dias dizendo a mesma oração: Amém

E quando seu peito doeu como luz
Ele pensou: Agora vou ver Jesus!
Mas a luz se foi e ficou só a dor no seu coração

É... pois é meu bem...
Castelos de areia derretem quando a onda vem

O cientista descobriu
Que o cérebro humano tem mais poder
Do que toda a vida na Floresta Amazônica

Mas tanta droga ele consumiu
Que seu pensamento o diluiu
E agora ele chora sua lágrima atômica

É... pois é, meu bem...
Castelos de areia derretem quando a onda vem

Estamos no ano 4 mil
Não existe mais calor nem frio
Ninguém morre, ninguém fica mais doente

Só uma coisa nos tira o sossego
É que apesar de sermos eternos
O medo é que neste fim sem fim
Seremos sugados pelo buraco negro

(Castelos de Areia - Paulinho Moska)

sábado, 24 de novembro de 2007

Falhar.

Esta é a palavra que mais se repete na minha existência. Falhar. Deixar de atingir objectivos, alvos, o que se deve ou se tem que fazer. Mas, por que falho?

Que "ganda" confusão…
Desconfio que é porque aquilo que devia atingir não é aquilo que quero. Sei que ser de determinada maneira é aquilo que os outros esperam de mim. Aquilo que produziria melhores benefícios. Aquilo que é consensualmente considerado certo.

Mas, após tanto tempo entendi que tenho uma camada de verniz que é para consumo público e que oculta o que sou, o que quero e o que considero importante. Conseguirei continuar assim? Valerá a pena continuar assim? Para quê? Será isso verdadeiramente falhar? Será que afinal consigo atingir o objectivo de ocultar-me?

Por vezes considero que o único fim da minha existência é ocupar um lugar. Tipo uma prateleira, que lá serve para segurar livros, ou um pneu que serve para o carro andar. Tenho que fazer coisas para segurar e fazer andar os que estão á minha volta. Mais nada…

E mesmo nisso estou a falhar.
Se calhar tinha mesmo que falhar. Não é vida para ninguém. Ninguém pode viver assim.

Bem vindo ao meu mundo. (Que maneira tétrica de começar… Imagine-se os próximos episódios.)