domingo, 26 de novembro de 2017

Dez anos

Na sexta-feira fez dez anos que iniciei este blogue. Só hoje é que decidi vir cá assinalar a data. Qual montinho anónimo de pedras num local qualquer de um qualquer deserto. 
Faz dez anos iniciei um ciclo aqui, talvez o ciclo mais importante e revolucionário da minha vida. Revoltei-me contra mim mesmo e eu nunca mais fui o mesmo. Não sabia o que estava a fazer, confesso. Apenas tinha uma dor em mim que necessitava de sair, qual assobio de uma panela de pressão. Resultou? Sim. Já não sou o mesmo e gosto de mim como sou.

Recordo a interacção com quem conheci aqui. Tenho com essas pessoas uma dívida de gratidão enorme. Não imaginam que foram, de certo ponto de vista, as pessoas mais importantes da minha vida. Sem os comentários, as conversas e toda a troca humana, eu não mudaria. Afinal são os outros que nos definem. Agradeço e penitencio-me pela maneira estranha com que as vim a tratar em determinadas alturas. Este meu caminho foi cheio de curvas contraditórias, paragens e recuos e muita estupidez recheada de medos. Gostava que soubessem que estou consciente do mal que me portei, e que lamento. Mas a minha vida era tão estranha que, tal como um ouriço, piquei que me queria afagar amigavelmente.

Recordo-vos com muito apreço, acreditem.

Passados dez anos não tenho a vida que gostaria, mas estou melhor. Lúcido e a lutar por mim. Sei que – como canta a Mariza – o melhor de mim está para chegar. Sem promessas, sem delírios, mas com a certeza de que estou a ser eu. Com as coisas boas e más que tenho, claro!

(Gosto muito de blogues, mas o Facebook matou-os lenta e perversamente. Também ando por lá, mas venho aqui bastas vezes. É o local onde nasci.)

domingo, 2 de outubro de 2016

Nostalgia

Tanto tempo. 
Tanto silêncio onde outrora as palavras esvoaçavam loucamente eclipsando a luz do sol.
Fui, mas nunca consegui sair daqui.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Cuando nadie me ve...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Um ano (ou a lição de uma perda)

Faz hoje um ano que soube da morte de uma pessoa que comentava no meu blogue. Usava o nick de Catatau. Não vou recordar a data apenas pelo espírito de efeméride; mesmo se fosse essa única a razão, era merecida, sem dúvida. A morte de um ser humano é sempre um acontecimento violento, marcante, de todos os pontos de vista, e relembrar a memória é uma nobre razão.

Neste caso, tenho uma razão acrescida. Tem a haver comigo. Dentro do que necessito de fazer por mim careço de falar de certas coisas. Fazê-las elevar acima do patamar onde circulam os meus pensamentos. É verdade que exteriorizar, envolve sempre um certo risco; dizer certas coisas em público, pode parecer ridículo e testa a paciência dos outros. No entanto sei que me faz sentir bem. Durante muito tempo pensei que bastava deixar os contornos difusos das palavras existirem para consumo próprio. Sei agora que isso foi mau. Terrível. Não quero voltar para essa caixa onde me sentia um misto de autista e sociopata.


Durante muito tempo, reflecti sobre o porquê da comoção da notícia da morte do Catatau. Era, para mim, uma questão importante, porque sabia o alheamento emocional que costumava ter ao atravessar os diversos cenários da vida. A questão era, em termos simples: porque senti a coisa desta maneira? Porque a morte de uma pessoa que eu não conhecia, nem de fotografia sequer, me perturbou, causando um forte sentimento de perda e uma sensação de vazio no meu dia-a-dia?

A resposta que consegui tornou-se óbvia. O Catatau - como os que lêem e comentam no meu blogue, como autores de blogues que leio, como alguns com quem já comunico de uma maneira mais pessoal - fez parte de um esboço de vida, com um certo patamar de verdade e genuinidade, que nunca tive. Embora ainda falte caminho, já sei o que é falar de sentimentos que são realmente os meus. Sem medos. Assim mesmo... 

O desaparecimento do Catatau foi uma maneira brutal de sentir o valor desse tipo de pessoas. Pessoas que podem achar-me parvo, esperto, ingénuo, corajoso, frágil, maniento, perspicaz, teimoso, arrogante, voluntarioso, saloio ou outra coisa qualquer. Pessoas que me rotulem como quiserem e como lhes dê na "real gana"... mas com quem eu posso ser naturalmente o que sou. Com quem posso dizer o que realmente penso.

O Catatau era, mesmo que virtualmente, parte desse meu admirável novo mundo. Senti, e sinto a sua perda, representada nos comentários que espalhava pela blogosfera. Recebi dessa situação uma lição de quanto valem pessoas com quem atingimos um elevado nível de sinceridade e o que dói a sua perda.


segunda-feira, 29 de março de 2010

Quantidade versus qualidade



terça-feira, 23 de março de 2010

Está-se mesmo a ver!

A TVI anuncia com pompa e circunstância que Júlia Pinheiro vai ter um programa onde se vai poder falar com mortos. Não sei onde está a novidade! É uma área onde este canal de televisão está há muito tempo dá cartas. Com aquele tipo de programas, com aquela quantidade de novelas e com o nível de alguns apresentadores para quem é que eles julgam que falam? Alguma coisa morta no cérebro deve ter quem vê muito tempo a TVI.

(Arrebentava se não dissesse esta tentativa de piada...) 



sexta-feira, 19 de março de 2010

A inevitabilidade de fazer as pazes com o passado

O passado não desaparece, evapora-se ou transmigra para outra galáxia. Por mais que desejemos ignorar o seu paradeiro, ele está sempre perto. Bem perto.

Por vezes tive a presunção de pensar que as coisas passadas eram apenas memórias. Papeis e livros velhos guardados num caixote que está na garagem à espera de uma limpeza de primavera mais determinada que o coloque no lixo. Coisas como decisões que tomei e que não deveria, bem como aquelas opções que não tive coragem de fazer. Pensar que esse tipo de coisas ficariam enterradas no tempo e seriam assim inócuas foi um erro. Um brutal, estúpido e depravado erro.

Foi como pensar que não tenho uma sombra agarrada aos pés só porque o dia está pardacento. Foi como pensar que atropelando uma pessoa numa passadeira e colocando-me em fuga, já não tenho responsabilidade. Foi como pensar que o dinheiro que pedi emprestado não tem que ser pago só porque evito e não atendo as chamadas que me faz o credor. Só se pode pensar assim por requintada ingenuidade ou delicado atrasado mental. (Em minha defesa prefiro a tese do ingénuo.)

O passado ficou marcado pela cobardia e ele não se conforma com esse estigma. Não perdoa o querer-se apostar numa linha de vida sem confrontos e num confortável marasmo. O passado exige a verdade e a coerência. Com o tempo uma pessoa habitua-se à mascara. O passado, dando-nos um valente pontapé no traseiro, quer visíveis as linhas genuínas da face. Sejam como sejam.

No fundo o passado não me quer estragar a vida, quer é evitar que a perca mais ainda. Com a sua acutilante crueldade de aparecer nas horas mais inoportunas e nos locais mais inesperados, ele no fundo gosta de mim. Acredito que deseja a reconciliação possível. Só que está-se a borrifar para os jogos em que me envolvi. Talvez tenha razão. Diz-me que o caminho vai ser duro, estreito, pedregoso, com becos aparentemente sem saída e com muitos dias de cerrado nevoeiro. E um caminho em que nem sei onde vai parar. (Aqui para nós, que ninguém nos ouve, eu preferia ter uma auto-estrada ao dispor. Com enormes cartazes azuis a indicar todos destinos com as precisas distancias que faltam. Sem portagens e com o depósito cheio. Gratuitamente, já agora!)

O passado não desaparece e não é uma velha caixa de cartão. É poderoso e não perdoa erros e, se calhar, neste seu pragmatismo, faz muito bem. Possivelmente leu e entendeu, melhor que muito boa gente, aquela frase que se atribui a Cristo: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”