quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

Um post mal intencionado

Uma praga. Uma maldição, um trabalhinho de vudu, um mau-olhado ou outra coisa qualquer que cause no mínimo uma dor de barriga a pessoa ou pessoas que desconheço.

Eu sei que não é conversa que se tenha. Mas, a razão é simples e decerto merece compreensão. 

Roubaram-me os pipos dos pneus do carro. Os quatro! Logo naquelas jantes que são o meu orgulho e onde esfalfo-me a tirar o negro pó de todas as fissuras. Logo aqueles pipos tão leais que cada vez que ia verificar a pressão dos pneus resistiam a sair como se fosse uma tentativa de violação.


E para que querem os larápios os pipos? Para que tipo de colecção de objectos inúteis? Para enfiarem no buraquinho das orelhas a fim de dormirem bem? Para servirem de supositórios? Para colocarem entre os dedos dos pés de modo a pintarem melhor as unhas?

Ainda me dizem que tive sorte. Podiam ter roubado as rodas. Ou até o carro. (Tipicamente português este tipo de raciocínio! Por essa linha de pensamento até ser atropelado é sinal de enorme sorte. “Morreu? Olha que sorte, podia ficar paralítico ou com uma grave deficiência!”; “Ficou paralítico? Ficou deficiente? Olha que sorte, podia ter morrido!”) Para mim é um roubo, independentemente do valor monetário, e um desgosto o que me fizeram. Ponto final.

E como não tenho maneira de encontrar o culpado, delego essa tarefa a quem pode. Se quero justiça de homens, entro com uma acção no tribunal; se quero justiça de quem controla coisas a um nível mais… digamos, elevadamente metafísico, rogo uma praga. 
(Raiospartam…)

A petição está feita. Para alguma coisa há-de servir ter um blogue.

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

C&H

Num destes dias ao ver um concurso televisivo, era colocada a questão aos concorrentes sobre qual era a sua personagem de BD favorita. Lá foram desfilando personagens conhecidos do meu imaginário. Compartilhava o gosto da maioria, pois sou aficionado da BD. Mas, após uns minutos pus-me a pensar que personagem quereria comigo naquela hipotética ilha solitária onde sempre nos colocam quando querem sacar-nos as preferências. Demorei uns segundo, mas foi incontestável a resposta. Com todo o respeito pelas boas horas que me dão os homens-aranhas, Obelixes e Mandrakes… Quem me faz rir e pensar como ninguém é este menino e o seu tigre!








quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

São saudades, Senhor!

Tenho sofrido ataques de saudades. Precisos, cirúrgicos e como tal perfeitamente delimitados na duração e emoções evocadas. Nem um bisturi seria mais perfeito no recorte. Surpreendem-me sem um padrão regular. Por vezes apanham-me em situações delicadas e inapropriadas. Outras vezes não. Quando calha estar só, posso naturalmente deixar humedecer os olhos, encostar as costas à parede e deslizar devagar até ficar sentado no chão. Quando estou no meio de gente é mais inconveniente, mas já aprendi a lidar com a situação. Começo por deixar de prestar atenção ao que os outros dizem, mesmo que me esforce para tal; então é altura de fazer um sorriso diplomático e dizer em surdina que já venho. Por vezes o carro é o sítio ideal para estar só.

Saudades. Não é apenas o sentir a falta de alguma coisa, como os espanhóis e os ingleses traduzem esta palavra tão nossa. É muito mais. É sentir uma dor requintada em todo o corpo, com origem no peito, mas que é accionada pela memória. Não é apenas sentir a falta de algo que passou, acabou ou se deixou longe. É mais do que isso. Por vezes inclui sentir a falta de algo no presente ou até, em casos raros, no futuro. É mais do que factos memoriais. São ventos que roçam esquinas e afagam pedras da calçada. Iluminam faces, apertam mãos e circundam dorsos em abraços intensos. Invadem jardins roubando aromas, pétalas e até fragmentadas folhas secas. Aprisionam em si as luzes e sombras da cidade junto com os grilos nocturnos dos campos isolados.

E esses ventos conseguem entrar dentro de nós, violentamente, e depositar esses tesouros com uma doçura estarrecedora. Depois não há quem aguente em pé, no meio da multidão, a sorrir e a fazer conversa de ocasião.

Não é possível.


quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Uma teoria

«Deus sabe tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está a acontecer no presente e tudo o que vai acontecer no futuro, o que pode ajudar a explicar um certo desinteresse.»



(Lido aqui. Que me perdoem a blasfémia, mas tem a sua graça...)

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

O sol é minha testemunha

Fiquei por um instante, com os olhos semicerrados, a olhar para o sol. Lá seguia o seu milenar caminho e neste momento preparava-se para esconder-se por detrás das inúmeras nuvens da tarde. 

Por um instante pensei se seria de facto o mesmo sol que brilha sobre aquelas pessoas que tenho visto abundantemente nos noticiários. Aquelas pessoas que sofrem e aquelas cujo sofrimento já acabou depois de muito agonizar. Vivemos realmente debaixo do mesmo sol, no mesmo planeta, separados apenas por algumas horas de avião?

Será que esse país chamado Haiti fica de facto neste mesmo planeta em que eu vivo ou serão imagens de outra galáxia, onde a estupidez, a maldade e o sofrimento são imutáveis leis físicas?


O meu pensamento saltou então para a palavra crise. Crise. Chavão tão de moda no nosso país. Desintegrou-se, derreteu-se, evaporou-se, implodiu. Perdeu todo o seu sentido perante o que vejo na televisão. Se escuto mais alguma vez um português dizer, com ar atormentado, que estamos em crise, juro que fico com uma vontade de lhe dar um pontapé que o faça chegar ao Haiti, onde espero que chegue vivo e em boas condições. Onde poderá explicar, perante aqueles mares de corpos vestidos de farrapos, a grave crise que se depara cá em Portugal. Poderá sensibiliza-los com o horror de não poder trocar de carro, de não poder ir ao restaurante todas as semanas ou dar ao mimado filho o último modelo de telemóvel. Tenho a certeza que os haitianos se sentirão tocados pela sua angústia lusitana.


Já não vejo o sol. Só nuvens. Ainda virá a chuva, decerto.
Tenho vergonha de viver neste planeta. Desta vez não sou abalado pelas contradições da minha vida, que dessas tenho aprendido a defender-me. Sei que tenho muitas coisas boas a meu favor. Tenho vergonha de ver pessoas, seres humanos que decerto esforçam-se mais do que eu para terem alguma coisa na vida, a passarem por aquela degradação.

Não é o terramoto que me causa esta angústia. É as coisas que uma calamidade destas faz saltar à vista e que só ao ser humano dizem respeito.

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

True

quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Jan(eir)o

Mês em que ressuscitam todas as esperanças. Trinta e um dias em que desabrocham viçosas mil promessas e pujantes inúmeras intenções solenes. Singular solo sagrado de tempo onde os conta-quilómetros de todas as nossas viaturas voltam a zero.

O calendário tem este efeito mágico. Coisas de números. Depois ainda há quem pergunte, ingenuamente, como é que a matemática é importante para a nossa vida! Dir-lhe-ia que, neste preciso caso, sem a contagem precisa do tempo a existência de uma pessoa pareceria apenas uma tosca linha. Uma linha cinzenta onde imagino um comboio pasmaceiro a viajar num cenário deserticamente sempre igual.

Agora, com esta coisa de pegar no tempo, manipulá-lo, contorcendo-o em várias formas circulares que apelidamos de anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos, a nossa vida mais parece um pândego carrossel onde, quando acaba uma volta, logo outra começa, nova, a estrear, recheada de oportunidades. Mesmo que o lastro das anteriores rotações tenda a agarrar-se como uma lapa ao canastro e insista em gradualmente fazer-nos sentir mais pesados e lentos, a ilusão funciona. Isso é importante, porque afinal, as ilusões são a realidade da nossa vida.

Janeiro. Os anais da história relatam que foi ideia de Júlio César, mais ou menos em 46 a.C., fixar o começo de um novo ano no dia 1 de um mês que dedicou a Jano, deus representado como tendo duas caras, uma virada para a frente e outra para trás.

De início não simpatizei muito com este deus. Fui ensinado a não fiar-me em pessoas de duas caras. Explicaram-me, ainda era eu petiz, que apesar de simpáticas, eram fingidas no que diziam e faziam. Mas logo fiquei a saber que o caso de Jano era outro. Ter duas caras indicava ser o protector de todos os começos e patrono de todos os finais. Sabiamente, indicava aos mortais a importância da ligação entre o passado e o futuro. Usando a metáfora do carrossel, ele tentava convencer os homens de quão importante era ter a noção de que, por mais voltas que lá se dê, todas estão, de algum modo, ligadas entre si. Nisto os romanos - desdizendo os meus amigos Asterix e Obelix - não foram nada loucos. Nesta perspectiva, até bastante sensatos!

Quando inicio um novo ano, como toda a gente, entusiasmo-me com as intenções e os votos. Mas tento sempre temperar esta animação com a mensagem de Jano. Esforço-me a olhar para o futuro com os pés assentes nas memórias dos anos que passaram. Tento, por exemplo, recordar se já fiz o mesmo tipo de votos nos Janeiros antecedentes. Caso sim, tento identificar o que ditou o fracasso dos planos. Tento igualmente pensar o que posso mudar desta vez para o resultado ser diferente.

Agarro-me. O carrossel começa mais uma volta.