sábado, 4 de abril de 2009

Hate

Os protagonistas deste mês, na minha banda sonora, são os Blue October com “Hate Me”. 

Assim, de repente, parece um título um tanto ou quanto doentio para uma canção, até mesmo feinho, não é?

 

Normalmente desejamos ser amados, apoiados ou simplesmente entendidos, mesmo vivendo dentro da nossa controversa armadura de vida. Obviamente. Mesmo quando ousamos falar com nitidez das coisas tristes da (nossa) vida, sempre deixamos, no final, escapar um cintilante, mesmo que seja finíssimo, raio de luz esperançoso reflectido por um alvo dente encaixado no nosso sorriso.

No entanto, apesar do título, esta música não me brinda sentimentos gratuitos de depressão ou auto comiseração. Gosto do estilo musical, da voz temperada com uma sedutora rouquidão e da letra ajustada à realidade.

É que todos sabemos, e sentimos, que os nossos dramas pessoais, mesmo que dissimulados, afectam a quem queremos bem, aqueles que nos rodeiam. Nunca estamos isolados na peleja com os nossos dilemas, mesmo que dependa unicamente de nós próprios fazer alguma coisa.

 

Essas epopeias iniciam-se por desejamos orgulhosamente demonstrar atitudes nobres, mas a certa altura damo-nos conta da gigantesca, pegajosa e kafkiana teia de aranha que nos envolve. Quando a certa altura, o cansaço dos tempos - e dos sucessivos fracassos, convenhamos - começa a definhar as nossas articulações, paramos; dizemos para nós próprios que é apenas para momentaneamente recuperar forças que nos permitam continuar. Mas a verdade é que, em surdina, esperamos impacientemente que, neste momento de fraqueza, chegue o aracnídeo - afinal dono e senhor deste viscoso mundo que nos prende - e que misericordiosamente nos ferre. Nos injecte aquele veneno que, mesmo que arda como o inferno nos primeiros segundos, trará posteriormente uma promessa de paz e de esquecimento.

Em certas ocasiões, observamos disfarçadamente pelo canto do olho, que quem nos rodeia espera, polidamente, um resultado. Anseiam nos seus pensamentos que aconteça qualquer coisa; porque afinal também estão desgastados. Tentam empenhadamente entender o que não entendem, tentam ajudar sem saber como o fazer. Demonstram uma enorme empatia, e também um árduo amor, solitariamente apoiados na sua esperança e, combatendo as dormências e as vozes negativas, lá continuam.

(E nós? Continuamos a olhar para aquela teia, e cortamos um fio, depois cortamos dois, e a seguir cortamos três; depois já perdemos a conta a quantos cortamos e reparamos que estamos praticamente na mesma; depois calculamos o que acontecerá se em vez deste cortarmos aquele; depois paramos um pouco porque já estamos ofegantes; depois reparamos com os olhos cansados que ainda falta tanto…)

Apetece então dizer-lhes: Hate me! Deixem-me! Vivam as vossas vidas e deixem de estar presos a esta peçonha que é só minha. Cortem-me da vossa memória como se corta um membro gangrenado e salvem a vossa vida. Chorem e façam um luto – se o quiserem - durante uns dias, uns meses, ou até uns anos. Mas depois sigam em frente.

 

Há alturas em que não revolto-me minimamente perante a vida.

Há alturas em que reconheço que ninguém à minha volta tem a culpa.

Há alturas em que aceito que não existe nenhuma cabala divina responsável pelas minhas circunstâncias.

 

Sou apenas eu. Puro e sem gelo.

Não me amem. Não arranjem problemas.

Pois é…não deve ser muito saudável pensar assim…

(Mas, a canção é fixe, não é?)

 


Blue_October_-_Hate_Me_-_videopimp -

 

5 comentários:

pinguim disse...

"sou apenas eu, puro e sem gelo"
Claro que é assim que deves ser, sempre!!!

Estás por aí na Páscoa?

Abraço grande.

No Limite do Oceano disse...

Yep a música é fixe. Por acaso nunca tinha visto o videoclip. Porque estou na fase que escrever custa, o teu texto até vai em parte ao encontro do que sinto mas nada melhor que umas guitarradas para nos levar ao colo do som.

*Hugs n' smiles*
Carlos

Daniel Silva disse...

Sim, a música passa... ;)

Mas dir-te-ia duas coisas, ainda.

Tens a lucidez de que nao tens culpa e os outros tambem não (de estares assim, de circunstâncias da vida assado), mas (prate 2) isso nao significo que tenham de se afastar de ti porque pensas haver uma relação causa efeito no mood dos outros e contagiares negativamente os outros só porque nao estás nao te sentes bem. Nopes. Muitas vezes saõ os outros a abrir a janela. cabe a nos acolhermos a luz ;9

Hugs*

Violeta disse...

A canção é "fixe", o texto soberbo.. e atua lama, ah! como a entendo!
deixa os fios da teia, fica, por momentos, egoísta e segue atua vida. Ou outros, mesmo que tenhamos uma enorme responsabilidade par acom eles, jamais poderáo ser o nosso carrasco!
bjs e fica bem..

Luís Galego disse...

Claro que é saudáve pensar dessa maneira....esses pensamentos atavessam-nos a todos e esse desabafo só mostra autenticidade. Gostei e um abraço...