quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Escutem isto, escutem isto...

“- Já senti na pele todos os tipos de discriminação – diz Oshima. – Só as pessoas que alguma vez foram vítimas dela é que sabem de facto como isso dói. Cada um sente a dor de maneira diferente, cada um tem as suas próprias feridas. Por isso, preocupo-me tanto com a igualdade e a justiça como qualquer outra pessoa. Mas aquilo que mais me desgosta são as que não têm ponta de imaginação. Aqueles a quem T.S.Eliot chama «homens vazios». As almas que preenchem sem piedade a falta de imaginação com pedaços de palha seca, sem terem sequer consciência do que estão a fazer. Pessoas insensíveis que te lançam à cara palavras vazias de sentido, tentando obrigar-te a fazer o que não queres.

(…)

Mentes limitadas, desprovidas de imaginação. Intolerância, teorias desfasadas da realidade, terminologia barata, ideias dogmáticas, sistemas rígidos, essas é que são as coisas que realmente me assustam. É isso que eu mais temo e mais detesto nesta vida. Claro que a questão de saber o que está certo e o que está errado é muito importante. Todos nós cometemos erros de julgamento que podem eventualmente ser corrigidos. Desde que tenhamos coragem para reconhecer que erramos, as coisas podem compor-se. Agora, espíritos tacanhos e intolerantes, sem imaginação, são como parasitas que transformam o hospedeiro, mudam de forma, sobrevivem e vingam.”

Kafka à beira-mar, Haruki Murakami

(Sei que ocupar um post com uma citação, e mais esta que parece um pouco extensa, pode ser sinónimo de falta de inspiração. Se calhar até é, mas aqui está presente outra intenção. Outro sentimento que não apenas o difundir frases bonitas, que o são, e que merecem posts.

Vejamos. Quando comecei a ler esta parte do livro, embora fosse a típica leitura mental, parei, voltei ao inicio e recomecei a ler sem respirar, cada vez mais depressa, mais depressa. Terminei a narração deste diálogo sem fôlego a olhar para um ponto imaginário da parede. Como gesto automático e consequente, dei por mim, com o livro fechado na mão direita, mas com o dedo indicador a marcar a página, à procura de alguém a quem lesse esta parte do livro. Queria que alguém entendesse como elas palavras disseram alguma coisa, como encaixaram na minha mente muito facilmente, tal como uma peça de puzzle, uma de contornos muito invulgares.

Parei a tempo, embora o coração continuasse a bater na expectativa. Lembrei-me que, por enquanto, parte do caminho da partilha tem que passar aqui.)


P.S.- Assuntos de ordem técnica. Vou andar a fazer experiências nas listas de blogues aqui ao lado. Como o tempo é pouco, isto vai aos poucos. Que ninguém fique magoado se temporáriamente desaparecer alguma referência ao seu blogue.

8 comentários:

Fernando disse...

Há sentimentos que não os conheço, nunca me senti discriminado, mas sabendo que toda a discriminação deve ser eliminada, luto através das minhas acções pelo fim da discriminação, seja ela de origem racial, pelo género, pela orientação sexual, pela deficiência ou outra... e rejubilo sempre que sei que há um livro, uma novela ou um filme, que aflora o tema, e que pode contribuir para que as pessoas mudem a sua mentalidade.

Ao princípio via tanto riso, agora já me vão ouvindo...

Violeta disse...

Adorei o livro. Agora leio outro do mesmo autor...
bjs

pinguim disse...

Nem Oshima é um escritor qualquer e muito menos esta será uma mera citação.
Concordo inteiramente com ela, pois numa pequena súmula de palavras tantas ideias e conceitos são aflorados e eu conivente com todos eles; é óbvio que não coincidi com Oshima em muita coisa, refiro-me exactamente a esta frase.
Abraço.

com senso disse...

Caro amigo

Trouxeste-nos um belo texto "...espíritos tacanhos e intolerantes, sem imaginação, são como parasitas que transformam o hospedeiro, mudam de forma, sobrevivem e vingam"

Este texto aplica-se como uma luva a uma grande parte das pessoas com quem me cruzo no dia-a-dia.... E é um verdadeiro drama!

Um abraço amigo!

TUSB disse...

Hà muita gente que não ve nada além da ponta do seu nariz, e espantosamente pessoas que deveriam ser mais abertas, muitas vezes são as mais fechadas...

Tongzhi disse...

Há texto assim, densos e com capacidade de aflorar aspectos que mexem connosco...
Este é um excelente exemplo.

André Couto disse...

Excelente escolha.
Murakami tem destas coisas fabulosas nos seus livros.
Naqueles que li tenho-os quase todos com diversos cantinhos de página dobrados marcando uma ou outra frase que me deixou com igual sensação.
Admito que sinto alguma inveja de que este senhor consiga transpôr para o papel tão bem e tão sucintamente aquilo que eu penso melhor do que eu próprio.

Grande abraço.

Socrates daSilva disse...

Gostei muito dos vossos comentários. Podem crer que imaginariamente os inseri numa amena tertúlia; daquelas ocasiões em que temos todo o tempo do mundo para falar e escutar.

Abraços
Bjs para a Violeta