terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Direitos Humanos e Religião: um caminho de dois sentidos

Quando normalmente se conjuga os tópicos direitos humanos e religião, a ligação que mais facilmente se estabelece é o princípio de que cada pessoa tem o direito de ter e vivenciar a sua própria religiosidade, quer em sintonia com alguma instituição religiosa, quer à sua própria maneira. Evidencia disso é o artigo 18º da Declaração Universal dos Direitos humanos. E, sem sombra de dúvida, tem este principio a força da razão!


Mas, continuando a navegar sob a égide dos direitos humanos, coloquemos a questão ao revés. Poderá alguém invocar o exercício de uma religião, ou a autoridade de princípios religiosos para limitar, impedir, ou até prejudicar a terceiros de usufruírem também dos seus naturais direitos como individuos?


Essa é uma questão assaz pertinente, que por vezes fica na meia penumbra. Foi esse ângulo da aplicação dos direitos humanos que me fez evocar o vídeo de Barac Obama no dia em que a Declaração Universal dos Direitos humanos fez 60 anos.



Religião, fé e Deus são assunto que, costuma-se dizer, não devem ser objecto de discussão, no sentido pejorativo da expressão. Mas, é um tema omnipresente, quer queiramos, quer não. Sejamos mais ou menos liberais, um pouco desinteressados, agnósticos ou até ateus, somos de alguma forma influenciados pelo que aqueles que nos rodeiam assumem e vivenciam neste campo.


Sempre me fez confusão, pontualmente, observar alguns focos, fosse em que religião fosse, de demonstrações de extremismo, de fanatismo e, de um modo geral, de falta de razoabilidade. Diversas teorias podem ser dadas para tentar explicar o porquê de algumas criaturas entrarem nesse território nebuloso que são os desequilíbrios de fé. Mas, com o passar do tempo tenho começado a sentir cada vez mais suores gelados com a menção da palavra extremismo. Uma pessoa extremista faz a prática religiosa ultrapassar o seu universo pessoal, para, como um buraco negro, querer atrair tudo o que gravita à sua volta para ser alinhado, nem que seja à força, com o que considera serem as suas verdades.


Creio que a intolerância enraizada em máximas religiosas é das formas mais eficazes de incitar humanos a encarar o seu próximo com um ódio fulminante. Nem sei se os preconceitos raciais serão tão eficientes! Quando activada, é uma maneira certeira de fomentar insultos, agressões, ódios assassinos e genocídios sem sequer se piscar os olhos de hesitação. Sem se sentir remorsos e, ainda por cima, sentir orgulho de se ter feito algo louvável.


Por serem levados a crer, equivocadamente, que estão respaldados na autoridade absoluta e inquestionável de Deus e da sua Palavra revelada, acham que todos os estão fora de uma obediência a essas directrizes já estão condenados. Na sua visão da vida, eles apenas limitam-se a cumprir a punição merecida. Encaram-se a si mesmos como uma espécie de “dedo de Deus”. São máquinas de guerra perfeitas. É assustador!


O bom senso e o proverbial amor divino deveriam fazer as pessoas pensarem que, o que para elas é realmente importante, e até pode ser encarado como sagrado, outro humano pode e tem realmente o direito - até de um ponto de vista teológico - dado por Deus de ter outra escolha, outra opção.


Se outra pessoa estiver errada, não há de Deus ter a suprema sabedoria e o infinito poder para corrigir ou punir os seus próprios filhos?

Mesmo que alguém tenha uma forte convicção na sua fé, não entende que existe um limite?

Não entende que desprezar, insultar e até promover ódios assassinos nada tem a ver com fé e na realidade nada resolve?

Como se pode exigir que se respeite o seu direito a assumir uma religião e não conceder a outros um direito semelhante quando têm visões diferentes da vida?



Por vezes existe o extremismo religioso oculto. Algumas pessoas ostentam uma polidez e uma conversa politicamente correcta, mas nos seus pensamentos aninham um preconceito cego contra o que é diferente.


Assim, um dia, quando por algum factor inesperado, “o verniz estalar”, essas pessoas não terão problemas em “punir” quem no seu ponto de vista merece esse castigo. São uma espécie de minas terrestres enterradas no solo; à primeira vista a paisagem parece bonita e inofensiva, até que alguém pisa o engenho e o efeito mortífero faz a sua aparição.


Por exemplo, na antiga Jugoslávia, a sã convivência entre católicos, muçulmanos e ortodoxos foi uma realidade durante décadas. As pessoas davam-se bem como vizinhos, colegas de trabalho e de escola. Mas, ao serem provocados e manipulados os seus sentimentos étnicos e religiosos, os mesmos com quem conviveram, foram alvo de actos cruéis. Violência e genocídios foram perpetrados por aqueles que antes pareciam não ser capazes de os demonstrar. Parece que a intolerância e o ódio religioso estavam dentro das pessoas. Adormecido, mas latente. Apareceu a faísca e explodiu.


Eu sei que o que se passou nesta parte da Europa foi mais complexo do que apenas simples diferenças religiosas, mas é um facto que elas também estiveram no cerne do ódio e da matança. Foram invocadas e mobilizaram.



Não pretendo de maneira alguma com esta conversa diminuir o direito de alguém - se o desejar - viver, assumir e até ter um espírito missionário da sua fé. Também não embarco na ideia de que se pode falar de tudo, mas não de religião. Como qualquer assunto é um tema válido, interessante e, no mínimo, pedagógico.


A questão é relembrar que existe um limite entre sentir-se bem numa vivencia religiosa e, impô-la impiedosamente a outros; uma linha demarcatória entre acreditar e viver uma fé e, usar os meios à sua disposição para prejudicar quem não os compartilha; uma fronteira entre a religião poder ser uma força positiva numa comunidade - seja a família ou o mundo - e, ser uma energia geradora de preconceito e ódio.


A prática de uma religião é um direito fundamental de todo o ser humano, com a mesma intensidade que ele tem o dever de respeitar genuinamente quem não compartilha esses valores. A religião, ou os valores espirituais de alguém, só têm grandeza quando contribuem para que essa pessoa seja melhor; seja um bom membro da sociedade, mesmo para os que não compartilham as suas crenças e vivências. O resto é pura demagogia!


Admiro pessoas de convicções, sensatas e equilibradas; tenho medo, mesmo muito medo do fanatismo religioso. O que está visível e o que está encoberto!

10 comentários:

Arion disse...

Ainda ontem ao almoço comentávamos, pessoas de credos diferentes, que o sagrado é inegável em qualquer ser humano. Os erros começam é nas imposições daqueles que nos querem administrar o livre-arbítrio através da fé. Ou, pior, regular comportamentos fazendo-nos sentir mal connosco mesmos em nome de uma qualquer ortodoxia. Mesmo laica... Abraço!

pinguim disse...

Muito importante e actual este teu texto sobre os Direitos Humanos e a Religião.
Só uma pequena adenda ao exemplo dado sobre as dierenças religiosas na questão da guerra dos Balcãs; ali defrontava-se três facções e realmente cada uma com o seu credo: ortodoxos, católicos e muçulmanos; mas pelo que sei, e tirando os muçulmanos, a diferença entre o Catolicismo e os Ortodoxos é muito pouca e não teve uma infcluência determinante entre os respectivos seguidores: croatas e sérvios; foram mais questões étnicas e políticas.
Abraço.

Socrates daSilva disse...

Arion,
É mesmo uma boa conclusão!
Não acabo de entender porque alguém acha que deve impor a outros o que são as suas escolhas e opções.
Se calhar até entendo… só pode ser pela sensação de ter poder sobre outros.

Eu cada vez mais acho que, desde que uma pessoa não prejudique os outros, ou seja uma ameaça para o bem-estar físico de terceiros, que escolha o que quiser da vida e seja feliz!
Se Deus tem algo a corrigir, Ele tem os melhores meios para o fazer. Haja alegria e bom senso!

Abraço!



Pinguim,
Um post ganha imenso com adendas como esta. Obrigado!

O conflito dos Balcãs foi algo tristemente complexo. Se fossem invocados, principalmente, motivos religiosos para explicar o que aconteceu, era realmente uma explicação imperfeita. Como acentuas, e muito bem, sobressai a dimensão étnica e política.

Mas, o que procurei destacar no meu post foi a anuência das crenças religiosas nesses actos fratricidas. Na maioria das vezes, elas ampararam o conflito e não promoveram a pacificação, talvez por serem mais um factor de divisão, a somar aos que já existia. Ressalva-se que, individualmente, alguns croatas, sérvios ou bósnios não se reviram nessa loucura e até terão, como puderam, sido conciliadores.

Mas é um caso em que o espírito do extremismo com cariz religioso pode ser incentivado por líderes políticos pouco escrupulosos. Recordo que certa vez li num blogue (foi procurá-lo para o citar fielmente) um post com o tema: “Era uma vez um pais…” e onde dizia a certa altura:


“Regressemos à Jugoslávia. Se olharmos com atenção para a língua, para os costumes, para a cultura, reparamos que as diferenças são muitos menos perceptíveis do que aquelas que encontramos, por exemplo, na União Europeia. É natural que muitos se tenham identificado com uma ideia de Jugoslávia, unida em quase tudo, excepto na religião. E aqui chegamos ao ponto fulcral da questão: a religião como motor da catástrofe.
Quando não existe a cor da pele, nem a incompatibilidade cultural, para justificar a chacina, qual é o último trunfo na manga dos Grandes Líderes? A fé, o dogma, a crença numa entidade divina triunfante ou numa ideologia salvadora utópica.”

http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/022755.html


Algo que também contribuiu para eu ter essa impressão foi o livro “Choque de civilizações” onde é proposta uma teoria, pelo cientista politico Samuel P. Huntington, que dá relevância aos aspectos religiosos como um possível factor de divisão entre culturas civilizacionais.


São opiniões discutíveis, decerto, mas sempre bons pontos de partida para reflectir e discutir, quando em causa está a procura de uma sã convivência num mundo cada vez mais multicultural e multirreligioso.

E eu, como tu meu amigo, quero é viver em paz e que todos possam ter condições de assim também viver, sem ameaças, venham elas de onde venham.

Um abraço!

com senso disse...

Raramente se vê abordar o tema da religião e ele é naturalmente de enorme importância, pois está na nossa matriz cultural e pertence, para uns pela positiva, para outros pela negativa, a uma esfera de intimidade, que tem sempre grande influência na formação da própria personalidade.

As observações muito pertinentes aqui expostas, sobre as posturas de fanatismo e exacerbação de comportamentos mantém-se infelizmente muito actuais.

Sempre me interroguei porque existiam nos dia de hoje esses comportamentos! Mas isso tinha como permissa que os dias de hoje eram muito diferentes do passado!

Afinal porque é que os Cristãos eram atirados às feras?
Porque existiu a inquisição? Porque se deu a matança de São Bartolomeu? Porque é que Calvino mandou assassinar os anabatistas?
Porque se fizeram as cruzadas?

Nos últimos anos temo-nos arrepiado quotidianamente com os actos de barbárie que alguns muçulmanos cometem em nome da fé, mas não será que na matriz das próprias religiões não existe implicito esse apelo à violência?

Não sou anti-religioso, mas será que quando se fala da matança dos primogénitos do Egipto, não se está a falar de uma violência terrivel sobre inocentes?

E o Dilúvio? E a destruição de Sodoma e Gomorra? E o próprio sacrifício de Jesus Cristo?

Se, nas suas bases, uma religião, afirma a existência do poder divino, através de actos de violência, exercida como um instrumento perfeitamente legitimo, porque nos havemos de admirar que alguns dos seus seguidores lhe sigam o exemplo?

Durante algum tempo era quase pensamento oficial que, no Século XX, se teriam obtido ganhos civilizacionais suficientes para que certas coisas não pudessem acontecer!

Infelizmente esse pensamento optimista sobre o mundo não contava com o factor da ignorância e da cupidez, que sempre dominaram e ainda dominam uma enorme parte da Humanidade e dos seus dirigentes!

E por isso quer nos conflitos entre nações, quer ao nível mais simples do relacionamento humano, a religião pode acabar por ser o pretexto e o argumento da destruição do outro.

Um pretexto, que como dizia já no Século XVII, o filósofo John Locke na sua Carta sobre a Tolerância, esconde o que verdadeiramente está por detrás da intolerância: o domínio do poder.

Tongzhi disse...

Por "defeito" de educação", sinto-me sempre pouco "liberto" para falar de religião. De facto era assunto "tabu" em casa dos meus pais.
Sou um fervoroso adepto da liberdade, em geral, e religiosa em particular. Tive uma estagiária, que depois "arrastei" comigo para a faculdade que era Testemunha de Jeová. Entre nós nunca ouve qualquer conversa sobre isso até ao dia em que me convidou para o casamento. Explicou-me na altura que ia casar e compreendia, pelo facto de eu ter outra opção religiosa, que não estivesse presente na cerimónia mas apenas no almoço. Claro que fui e até achei muito engraçado o modo como decorreu. Oito dias depois casou uma outra estagiária. Católica fervorosa, o casamento foi na igreja com "tudo a que tinha direito... Mas a primeira não entrou...
Tolerância é uma palavra tão bonita...

Socrates daSilva disse...

Com Senso,

Se este tema costuma ser pouco abordado, creio que no teu comentário mostraste uma das grandes razões. O incómodo de encarar frontalmente certos aspectos doutrinais das religiões. Como se com isso estivéssemos a ser intolerantes!

Deixa-me colocar a questão partindo de outro ângulo. Em todas as religiões existem os genericamente apelidados “conservadores/ortodoxos” em contraponto aos “liberais/modernistas”. E cada um dos grupos tem argumentos doutrinais e teológicos válidos para a sua postura. Recorrendo ao que melhor conheço, o caso da Bíblia, cada um tem na sua “bagagem” referências e citações que aparentemente apoiam a sua visão. A realidade é que valoriza-se a parte que se gosta e, menospreza-se, com alguns argumentos, aquilo que não corresponde à nossa visão das coisas.
Claro que se alguém lê toda a Bíblia sem uma opinião pré-concebida, pode ficar confuso com o facto de, nuns lados exaltar o amor e a concórdia entre todos e, noutros lados justificar o ódio aos que ofendem, ou simplesmente não são militantes da causa do Senhor.

Creio que em todas as outras áreas religiosas se passará o mesmo. Por exemplo, ao ter tido a oportunidade de ler alguma coisa sobre o islamismo e conversar com alguns muçulmanos, entendi que o sentido de “Jihad” por vezes, diverge de muçulmano para muçulmano e de sensibilidade religiosa.
Havendo duas formas de “Jihad” que a maior parte dos muçulmanos moderados encara de um modo puramente espiritual, os membros mais extremistas usam este termo de um modo que parece justificar os mortíferos ataques contra os “infiéis”.

Igualmente, penso que também o facto de as pessoas estarem a ser manipuladas nos seus sentimentos religiosos em pleno século XXI, tem a haver com o caso de ocasionalmente não terem esperança em mais nada. Num mundo confuso e onde a liderança humana é tremendamente frágil e desalentadora, as pessoas agarram-se, por vezes freneticamente, ao que ou a quem lhes promete algo melhor do que isto. Certa vez escutei alguém que dizia: não percam a fé; não há mais nada!
(É uma das minhas teorias…)

Um abraço!


TongZhi,
Pode-se dizer assim que o teu pai era intolerante para a religião…
:-)
Mas, vê-se que te deu bons princípios, como revelas neste teu comentário.

Em relação ao episódio que contas, serve para ilustrar que a intolerância, ou às vezes a simples rejeição do que não se conhece, revela-se em grande e pequenas coisas.

Abraço!

Paulo disse...

muito actual e certeira esta tua análise. todas as religiões e credos deviam ser mais respeitadores dos direitos humanos, mas quando chega o fanatismo esquece-se o outro e só nós interessamos... é pena que assim seja e assim continue a ser, já que quem perde são os seres humanos.
abraço

Socrates daSilva disse...

Paulo,
Excelente conclusão: “quem perde são os seres humanos”.
Infelizmente, tantos séculos de erros e não se aprende…
Abraço!

Paulo disse...

conclusão: o ser humano não aprende com os erros! é que só pode ser isso!

abraço

Socrates daSilva disse...

Paulo,

Um amigo meu diria:
“das duas, uma: ou é parvo ou é maldoso”
Abraço!