quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A subida

Subi a serra com aquela impaciência característica de quem não aguenta muito até reencontrar uma velha amizade; por fim, e apesar de parecer que todos os carros à minha frente andavam mais lentos do que o habitual, esses pesados minutos escoaram-se.

Inspirei devagar. Mais por insistir em fazer deste um momento especial do que por real cansaço. Sabia que voltaria a deslumbrar-me com tiques de ingenuidade ao transpor aquela porta rotativa. Sabia que voltaria a enganar-me no atalho para assim deambular ainda mais dentro deste castelo mourisco. Dentro de um espaço onde sei o que é o tempo sem tempo. Coisas de uma terra chamada Sintra.

 

Nunca dispenso uns minutos a sós com a pequena igreja românica de onde inicio a etapa que me leva a calcorrear alegremente os degraus das muralhas já meio devorados pelo tempo. Ao atingir este patamar elevado, sinto-me imbuído daquela inigualável sensação de felicidade arejada e livre, mesmo que seja fugaz. Mas, para a que a ocasião seja mais-que-perfeita tenho que ir ao meu local predilecto, onde, apenas com as nuvens como testemunhas, assumirei ser uma espécie de semideus, a olhar para baixo, para a humanidade espalhada por aquela enorme mancha esbranquiçada.


Penso. Se pudesse congelar este preciso segundo, quantas histórias...

Quantas pessoas empenhadas nas suas rotinas fatigantes, uns apenas para sobreviverem, outros nem sabendo porquê; quantos choros, uns contidos e secretos, outros soluçados a plenos pulmões; quantos projectos em embrião, uns para o sucesso, outros para o fracasso; quantos a tentar salvar vidas, e outros a esmigalhá-las displicentemente; quantas esperas por quem ou chega na hora, ou chega tarde ou nunca chegará.

Pressas, multas, desencontros, alegrias, quedas, portas encravadas, ódios, acidentes, sorrisos, compras e dores de barriga. 

Teria de tudo e mais alguma coisa neste segundo congelado no tempo.

 

Volto a mim. Ninguém olha para cima, para o castelo, e sabe que lá estou a observar e inventar.

 

 

Serei mesmo um grande estúpido e consequentemente alguma coisa está a escapar ao meu entendimento ou serei mesmo o único que acha que existe algo terrivelmente errado no sentido deste mundo?

 

10 comentários:

Vasco Matos disse...

Não és estúpido - evidentemente - nem estás sozinho. Estou convicto de que se avizinham tempos de conturbações sociais esmagadoras, talvez não tão remotas como gostaríamos de imaginar. Aproveita ao máximo a companhia dos teus. De resto, como todos devemos fazer. Tenho saudades de Sintra. Abraço!

Daniel Cândido da Silva disse...

Vê lá se me levaste a Sintra... aqui tao perto e tao distante :( chuif ou deverei dizer humpf?

Violeta disse...

Sócrates
não és o único, mas vamos tentando fazer a nossa vida, mudar o que está ao nosso alcance e fazer adiferença, sebendo que se é uma gota d eágua insignificante. tudo isto sem dramas...
bjs e desfruta a spaisagens e os momentos da vida, tb esses que aparentemente são de introspecção e meditação...

No Limite do Oceano disse...

Não conheço Sintra (How can I?!) mas o que sei é que há sítios capazes de nos fazerem sentir maravilhas. Não é o mesmo que estar nas nuvens, mas a subida que falas no teu texto eu tento faço todos os dias, não rodeado de paisagens e eu estúpido posso ser mas não o sou todos os dias e decerto que tu também não és.
Sim há muita coisa errado mas...

*Hugs n' smiles*
Carlos

Maldonado disse...

Realmente esses pequenos momentos de retiro tornam-se rapidamente grandes quando começamos a reflectir sobre o sentido da vida. Por isso mesmo gosto de caminhar sozinho por aí... Aprende-se muito com os pequenos detalhes...

free_soul disse...

Observar o Mundo a girar de um alto mitico como a serra de Sintra faz-nos sempre parecer um pouco estupidos e ao mesmo tempo com vontade de gritar ao mundo..."mas estão Parvos...vivam!!!"
Não somos superiores porque pensamos e isso é qu me doi...
E nesse teu local vês pessoas e pensas no que vivem ou sobrevivem...e noutras Serras como o Pico em que não vês ninguém e vês a imensidão e pensas nos milhões e milhões que não vês mas que imaginas para lá do Oceano...
Vive tu...não sobrevivas...
Um beijo

Tongzhi disse...

Sintra é um encanto. Quer na parte mais mundana, quer nesses esconderijos espalhados pela serra, têm, em mim, um efeito enorme.
Como sabes, vivo bem perto. Vou lá muitas vezes mas não me canso de voltar.

Socrates daSilva disse...

Vasco,
É uma inquietação antiga. Não se prende apenas a estes tempos de crise, que apenas ampliam as minhas dúvidas. Mesmo em tempos de relativa normalidade, sinto que algo me falta entender no sentido da vida. Não só da minha. De toda este pedaço de matéria que navega no universo…

(Sabes como se “matam” as saudades de Sintra?)

Abraço!


Daniel,
Deixa lá… Eu fui sozinho. Em certas alturas não sou boa companhia para ninguém. Portanto diz antes… Uffa!

Abraço!


Violeta,
Gota a gota, o rio vai ganhando volume…
:-)Bjs


Carlos,
Imperdoável o facto de não conheceres Sintra…

Sim, o que havemos de fazer perante “tantas peças que não encaixam no puzzle”? Olha, desabafar, senão rebentamos!
Abraço!


Maldonado,
Esses pequenos/grandes momentos, o caminhar, os pequenos detalhes…
É o que faz algum sentido!

Bem hajas pela visita e comentário.

Abraço!


Free_soul,
Pois é tens toda a razão. Vivamos!

Mas, recordares a vista do Pico foi um golpe de génio. Espectáculo!

Bjs


Tongzhi,
Privilegiado quem vive perto de Sintra!
(Junta também os travesseiros e as queijadas...)

Abraço!

André Couto disse...

Caríssimo amigo,
é evidente que não se trata de estupidez...
A capacidade de ver o que nos rodeia é algo que vai rareando cada vez mais. Já quase ninguém pára para olhar, quanto mais para pensar...
Concordo com Vasco Matos e não sendo vidente adivinho tempos conturbados pela frente.
É importante que a dor de sentir o mundo que vemos continue a não nos impedir de continuar a olhar sofregamente.

Um grande abraço.

Socrates daSilva disse...

André,
É tão importante esse olhar! O sentir e meditar.

É pá, mesmo que não se resolva nada, pelo menos tentamos usar os neurónios e sentimos que não andamos cá só por andar…
:-)

Bem hajas. Muito também pelo teu regresso
Abraço grande!