sexta-feira, 14 de março de 2008

É um tango delicado


No Jornal Público saiu uma reportagem cujo tema despertou a minha curiosidade: “Amar demais também pode ser um problema”.

Passo a fazer “zapping” sobre a notícia:

"Se sofres quando amas...Se amas o homem errado...Se amas de maneira errada...Se amas alguém emocionalmente distante... Procura-nos! MADA (Mulheres que Amam Demais Anónimas) pode ajudar-te!". Estas são apenas algumas das muitas formas de amar erroneamente, inspiradas no livro de Robin Nonwood, “Mulheres que Amam Demais”, enunciadas no panfleto do grupo. O tom da escrita e os conselhos de auto-ajuda podem soar a seita religiosa. Mas não. O MADA é uma espécie de alcoólicos anónimos, onde o vício é não o álcool mas o amor.
(…)
“Quando questionada sobre o que é uma mulher que ama demais Madalena diz não concordar com o nome do grupo: “considero o nome MADA bastante incorrecto, não é amar demais, é amar de uma forma doentia. Viver a vida mais virada para o outro do que para nós”. Segundo o psicoterapeuta Aníbal Henriques, “Mulheres que Amam Demais é um nome bonito que não estigmatiza, é um chapéu colorido e aberto que permite às pessoas escapar a patologias redutoras. Amar demasiado não existe, pode amar-se, sim, de forma desajustada ou desfavorável aos intervenientes”, conclui.”
(…)
“Não têm necessariamente de ser vítimas de violência doméstica ou ter companheiros adictos. Podem ser mulheres com uma família normal mas que têm um sentimento obsessivo de posse para com o marido ou os filhos”, explica Madalena.
(…)
Uma característica comum a todas estas mulheres é a necessidade de controlar os outros e de acharem que têm o poder para modificá-los, refere uma nota informativa do grupo. Madalena viveu com um alcoólico e programava a vida do companheiro para que as recaídas não fossem sucessivas. Anulou-se em função de uma vida que não era a sua.
(…)
O equilíbrio consiste em ir ao encontro do outro, sem o perder nem me perder a mim próprio”, afirma Aníbal Henriques ao tentar explicar o que poderá estar na origem deste tipo de comportamentos compulsivos. “É um tango delicado. Dançar de forma agradável para o outro sem o pisar não é nada fácil”, metaforiza o psicoterapeuta.
(…)
“nem sempre podemos falar em doença até porque todos, em algum momento da nossa vida, ‘amamos demais’, amamos de forma errada, queremos receber do outro não o que este nos dá mas o que necessitamos receber. É uma condição inerente às relações humanas”.
(fim da citação)


Isto de um sentimento essencial á vida poder estar na base de desequilíbrios emocionais é um assunto que dá “pano para mangas”. Recordo-me de ler há algum tempo a situação de mães que “amam” tanto os seus filhos que os medicam a fim de provocar neles doenças para os terem sob o seu controlo e cuidado o maior tempo possível.

“All you need is love”, diz a canção e com razão. Será que a privação de receber/dar amor faz surgir estes desequilíbrios? Será que o desespero faz sentir que vale tudo para se conseguir amar/ser amado? Será essa obsessão tão grande que segue caminhos auto-destrutivos?

Então, se tudo o que precisamos é amor, se alguém não tem/dá amor, não tem nada. E quem nada tem a perder pode tornar-se perigoso. Para si e para outros.

Receio de que o que vejo claramente como um erro nos outros possa não enxergar em mim. Decerto que não estou a controlar doentiamente alguém por o querer amar muito. Mas, tenho a noção de que reprimir o dar/receber amor de maneira genuína e sincera também não deve fazer bem a ninguém.

O que será pior? Amar de forma errada ou não amar por medo? Entre alguns malefícios, corre-se o risco de se ser insensível e congelar os sentimentos. Ser uma espécie de zombie, um morto-vivo entre o mundo dos sentimentos e o da razão.

Se amar é comparado a dançar um tango delicado, então estou a dançar música folclórica da Sibéria numa fábrica abandonada algures no meio do deserto. Apetece-me criar o HPAEA (Homens cujo Potencial para Amar está Escondido Anónimos).

11 comentários:

Special K disse...

Pode-se amar de mais? Desde que seja um amor saudável nunca é demais.
Um abraço.

socrates dasilva disse...

special k,
Acho que se pode amar saudavelmente ou de uma maneira doentia, mas acho que esta última não deve ser "tecnicamente" amor. Será doença. Isso foi comentado por algumas pessoas na noticia. E mesmo quando se ama existe a questão de amar respeitando o outro. Não é "eu amo vou fazer tudo o que quero em nome deste amor". Pode existir o sufoco.
Acho que a palavra que usas-te "saudavel" é bem apropriada...
abraço

pinguim disse...

"Amar demais" até pode ser entendido como uma justa medida e não como um exagero; tudo depende das situações...o que é necessário é que haja reciprocidade.
Abraço.

socrates dasilva disse...

pinguim,
Concordo. O que é bom e saudavel nunca é demais. Eu é que sou mais sensivel a esta temática devido a estar numa fase de tentativa de equilíbrio de afectos.
abraço

Infinito disse...

Se amar é comparado a dançar um tango delicado, então estou a dançar música folclórica da Sibéria numa fábrica abandonada algures no meio do deserto.

esta frase merecia um Oscar...

socrates dasilva disse...

Luis,
Obrigado, mas estás a deixar-me corado...
Também gostei do teu blogue. Voltarei.
abraço

Hydrargirum disse...

Tem graça ler isto agora aqui...quando um destes dias com uma amiga psicóloga discutíamos este tema e a MADA....

Sabes que acho que esse tipo de Amor Demais...só é "gatilhado" qd a pessoa ao nosso lado não nos sugere ou inspira confiança....

Mas isto sou eu a falar do alto dos meus 31 anos...esta é a minha opinião e vale apenas por isso mesmo....sendo reflexo das minhas experiências...

Amar Demais...é destrutivo...não apenas para o objecto da nossa afeição...como para os que Amam Demais...já viste a energia necessária...para controlar TUDO o que isso implica...é cansativo, não achas?....

Abraço:)

socrates dasilva disse...

hydrargirum,
O amor é uma qualidade espectacular. As pessoas é que umas são boas, outras são umas pestes. "Amar demais" é um eufemismo para gostar de alguem que possivelmente não mereçe e o relacionamento torna-se doente, sem equilibrio e alegria. Será? (Bem, tenho uns anos a mais de experiencia do que tu, mas não sei se me vale de alguma coisa...)
abraço ;-)

Paulo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo disse...

Em relação às perguntas, acho que é pior amar de forma errada, mas não tenho a certeza porque não amar por medo também é mau, mas só para uma pessoa, a que sofre. Quando se ama de forma errada, sempre sofre mais do que uma pessoa, quando se não ama por medo, só é uma (em princípio). Mas onde é que está a fronteiro do que será amar demais? Acho que o tango, mais do que delicado, é mais arrebatado, como deve ser o amor incondicional.
Enfim, acho que estou meio confundido e sem perceber nada disto.

socrates dasilva disse...

Paulo,
Aqui o confundido sou eu. Apenas aproveitei a deixa da noticia para reflectir sobre se é pior andar a "dar cabeçada nas paredes" sozinho ou acompanhado. Tiveste uma boa resposta, numa situação sofre-se sozinho, noutra sofrem dois. Voilá!
Eu também gostava de perceber melhor.
abraço