quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

São saudades, Senhor!

Tenho sofrido ataques de saudades. Precisos, cirúrgicos e como tal perfeitamente delimitados na duração e emoções evocadas. Nem um bisturi seria mais perfeito no recorte. Surpreendem-me sem um padrão regular. Por vezes apanham-me em situações delicadas e inapropriadas. Outras vezes não. Quando calha estar só, posso naturalmente deixar humedecer os olhos, encostar as costas à parede e deslizar devagar até ficar sentado no chão. Quando estou no meio de gente é mais inconveniente, mas já aprendi a lidar com a situação. Começo por deixar de prestar atenção ao que os outros dizem, mesmo que me esforce para tal; então é altura de fazer um sorriso diplomático e dizer em surdina que já venho. Por vezes o carro é o sítio ideal para estar só.

Saudades. Não é apenas o sentir a falta de alguma coisa, como os espanhóis e os ingleses traduzem esta palavra tão nossa. É muito mais. É sentir uma dor requintada em todo o corpo, com origem no peito, mas que é accionada pela memória. Não é apenas sentir a falta de algo que passou, acabou ou se deixou longe. É mais do que isso. Por vezes inclui sentir a falta de algo no presente ou até, em casos raros, no futuro. É mais do que factos memoriais. São ventos que roçam esquinas e afagam pedras da calçada. Iluminam faces, apertam mãos e circundam dorsos em abraços intensos. Invadem jardins roubando aromas, pétalas e até fragmentadas folhas secas. Aprisionam em si as luzes e sombras da cidade junto com os grilos nocturnos dos campos isolados.

E esses ventos conseguem entrar dentro de nós, violentamente, e depositar esses tesouros com uma doçura estarrecedora. Depois não há quem aguente em pé, no meio da multidão, a sorrir e a fazer conversa de ocasião.

Não é possível.


12 comentários:

SDaVeiga disse...

Lindo e bem verdade!!!

E a única maneira de aguentar de pé é já ter passado tanto tempo e tanta coisa na nossa vida, que percebemos que já nada poderia ser diferente (melhor ou pior, não interessa qual!), pois já não seríamos nós mesmos e conseguimos olhar com tranquilidade e saudade para essa SAUDADE, qual experiência extra-corpórea...
Não é que o tempo cure ou apague, mas ajuda-nos a continuar e, um dia, chega o momento em que a saudade bate forte, mas já somos capazes de ficar de pé...

pinguim disse...

Texto magnífico este e que eu sinto de uma maneira intensa e por vezes quase incontrolável.
Abraço.

Violeta disse...

querido Sócrates,
sei do que falas por isso te confirmo: não, não é possível...

Socrates daSilva disse...

Grato pelas vossas palavras...

Abraço e bjs

altar disse...

Eu tenho um segredo para esses momentos... Procuro um abraço dos fortes e quentes...
Resulta...

com senso disse...

Caro Amigo

Há momentos em que nos sentimos completamente sós, em que tudo o que sabemos (ou julgamos) ser importante não está presente e por isso nada mais importa.
Será que alguém nunca passou por isso, será que alguém tem dúvidas que essa sensação de uma dor tão funda não passará e que mais tarde por uma ou por outra razão não voltará.
Quando assim estamos não há palavras que nos confortem, há apenas que saber estamos a receber uma grande lição de vida e que temos que aprender com ela, para que da próxima vez tudo seja mais simples.
Um abraço amigo!

TUSB disse...

Eu sinto demasiado essa saudade de que falas... e as vezes basta me ver um casal na rua a passear para me dar uma subita vontade de chorar... a minha alma gemea já não se levanta da cama... e eu já nem consigo ver felicidade e amor sem ter os olhos vermelhos...
Abraço

TheMenBehindTheCurtain disse...

Sempre assolador voltar a reviver uma realidade que nos seja tão querida...
Devo dizer que achei o texto espectacular, perturbadoramente verdadeiro!
Abraço

Há.dias.assim disse...

Saudade,
é algo dolorosamente belo...

Vasco disse...

Não é mesmo possível, mesmo que pareça mais confortável àqueles que, como eu, passaram a vida a comer no focinho por dizerem o que pensam. É desgastante, mas, pelo menos, sabemos que os poucos que nos acompanham no mesmo barco não o tentarão virar. Até ver... Abraço!

Sinest3sico disse...

Como me revejo por vezes no que escreves! Saudades. Grandes!

Abraço

Socrates daSilva disse...

A todos os comentadores agradeço a generosidade das palavras e de terem compartilhado aqui o que vos marca esta palavra inigualável que é a saudade.


Vou apenas dirigir dois comentários personalizados.

TUSB,
Lamento muito o que contas. Ver sofrer alguém que amamos tem de ser algo imensamente doloroso. Nunca sei o que dizer que seja efectivamente eficaz em tentar minorar esses sentimentos. Sinto que neste momento os meus problemas são tão pequenos em comparação com o que passam outros. Muita força!
Abraço!


Vasco,
Não te arrependas de “levar no focinho” por seres sincero. É verdade que podemos dizer coisas verdadeiras, e por vezes incómodas, a outros de várias formas. Mas, mesmo as maneiras mais delicadas e diplomáticas muitas vezes não colhem simpatias junto dos visados. Mas, aprecio e valorizo muito essa tua característica. E posso dizer mais. Se por acaso o tempo ou um outro factor muda a tua opinião, és suficientemente humilde para corrigires a tua opinião e disso fazeres saber os visados. Por isso, e afinal o post fala de saudade, pessoas como tu dão saudades, com toda a certeza!
Abraço!