segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um ano impar

Era um sábado de tarde; dia solarengo, apesar de estar sob o signo outonal. Recordo bem aqueles precisos segundos em que infinitamente hesitei em premir o botão esquerdo do rato, cuja setinha estava sobre o botão “Publicar Mensagem”. Quando finalmente o fiz - não porque tivesse a certeza de o querer fazer, mas porque o dedo não obedeceu aos meus raciocínios prudentes - senti uma sensação electrizante tingida com uma cabeça atordoada. Estava “no ar” o blogue Castelo d’Areia, com o primeiro post denominado “Falhar”. Foi o primeiro termo que me veio à cabeça e representava muito bem o que era e, em certa medida continua a ser, a minha vida. Tinha escrito livremente o que sentia, o que estava cruelmente encravado em mim, e que, sem o poder exteriorizar, putrificava-me a alma, ano após ano.

Faz hoje um ano!


A metáfora mais fiel em explicar o que senti a partir daquele momento, é a de um miúdo que pontapeou uma bola contra uma janela, estilhaçando o vidro e, acto inconsciente e instintivo, encolhe-se todo, com os olhos fechados, a esperar que termine o ruído dos vidros partidos, a aguardar os gritos de alguém e os passos apressados de quem quer apanhar o meliante, e por fim receber a disciplina na forma de um sermão ou um tabefe bem dado.


Eu fiquei também com os olhos fechados à espera…
Á espera que, inesperadamente, alguém me abanasse e me desse um par de estalos porque, sabe-se lá como, descobriu que era eu o autor daquele blogue, e tinha feito uma grande estupidez. À espera de críticas anónimas e mordazes pela pobreza da escrita, de risos pelo ridículo da situação, do desprezo pela ousadia de tratar um assunto insólito. Á espera até de silêncios, tipicamente brindados a quem merece desdém pela postura imbecil. Mas nada disso aconteceu com o passar do tempo. Assim, fui, vagarosa e timidamente como que abrindo apenas um olho para ver o que se passava

Passo a passo chegam palavras. Palavras de presença, de empatia, de solidariedade e de cautela. Vou deixando de estar encolhido e tenso, e lentamente abro, por assim dizer, completamente os dois olhos. A vertigem vai diminuindo e vou sentindo os pés assentes numa terra firme, longe da base instável em que vivia os meus dias. Sim, eu usufruia de uma instabilidade enjoativa, onde tinha que medir constantemente o que dizia, o que respondia, para onde olhava; e mesmo assim, sem certezas; afinal, não queria, nem podia dar pistas. Apenas labutava para sobreviver como entidade, sem mais nenhumas pretensões.

Agora, incrivelmente, podia escrever o que realmente pensava e sentia. Sem receio de ser encarado como um doente mental. Mesmo sem o privilégio de dar a cara, isso tornou-se um luxo imenso! Conheci um mundo que não sabia que existia senão em nebulosas lendas urbanas e histórias de papões. Conheci, virtualmente, bem tenho disso consciência, pessoas de sentimentos normais, apenas tendo uma orientação sexual diferente da maioria, mas semelhante aquela que pulsava dentro de mim.


Um ano passou.


5…

4…

3…

2…

1…

O ciclo fechou-se!


13 comentários:

com senso disse...

Caro Amigo

Por razões familiares tenho andado afastado do mundo bloguístico e infelizmente a minha disponibilidade para um regresso rotineiro ainda não existe.

Nem tenho colocado posts nem tenho visitado outros blogs.

Mas hoje resolvi arranjar algum tempinho e encontrar uma forma de dizer a uma pessoa de que gosto muito, que ela não estará só.

Fi-lo através do meu blog. Blog que ela nunca leu, nem nunca irá ler, tal como tantas e tantas figuras sobre as quais tenho escrito nunca irão saber que eu o fiz.

Mas agora tratava-se de alguém especialmente ligado a mim.

Entretanto, por falta absoluta de tempo,decidi não deixar rasto na minha ronda pelos outros blogs que habitualmente me tornam os dias mais completos e felizes.

Ao ler contudo o Castelo de Areia, resolvi dizer algumas palavras, esperando não ser muito maçador.

Neste seu Castelo sinto-me mais numa casa do que numa fortaleza e congratulo-me por ele continuar de portas abertas e por constituir um espaço de reflexões muito bem elaboradas e sobretudo repletas de uma imensa humanidade, em tudo o que ela tem de grandioso e de simultaneamente frágil.

Gostei naturalmente deste seu post, está extraordináriamente bem escrito e ainda que mais não fosse valeria a pena lê-lo até pelo simples prazer da leitura.

Admiro a sua coragem carregada de lucidez, o que quer dizer que além de um auto-conhecimento que se vai aprofundando, ela transporta incertezas e inquietações, próprias de qualquer ser inteligente.

E por isso aqui aprende-se sempre! Aprende-se Vida!

E por isso também, permito-me neste momento, em que vivo alguns problemas para os quais me sinto completamente impotente, dizer-lhe que a canção que dedico no meu post à minha mãe, também gostaria de dedicar a si.

Pode ter a certeza, caro Socrates da Silva, que com a sua coragem e a sua força interior decerto(parafraseando a canção)You'll never walk alone.

Os amigos também existem para partilhar caminhadas e neste caso igualmente para lhe agradecer um ano de magnificos posts.

Um forte abraço

pinguim disse...

Tanta coisa para dizer e mesmo assim faltam-me as palavras; assisti ao parto do teu blog e fui dos primeiros a fazer "festas" ao bébé, pois os seus primeiros sons não enganavam; apostei forte no teu blog, através de ti e abrindo-me para contigo, fiz com que te abrisses para comigo; fui, talvez, o primeiro dos teus leitores a saber da tua vida e dos teus problemas, mas nunca nada te perguntei e tudo o que de ti sei, foi dito por iniciativa própria; fui também, penso eu, a primeira pessoa desta área a ouvir a tua voz e longas e agradáveis conversas contigo mantive, mas sempre respeitei o teu mundo, nunca te telefonando, embora tenha o teu número (e sabes que podes ligar-me SEMPRE); e mais recentemente, perdoa se vou contar um "segredo", tive a honra de te ter encontrado pessoalmente, nuns fugídios minutos, em Sintra, na véspera da minha partida para Itália; para completar o "bouquet" quis o destino que na tua vinda para a metrópole, tenhas vindo a estabelecer-te onde estão as minhas raízes...
Amigo, posso dizer-te e sem falsa modéstia que me considero um privilegiado, pois tantas coisas aconteceram entre nós durante este ano.
A minha experiência de vida é grande, mas devo dizer-te que tenho aprendido muito contigo e isso é uma tremenda felicidade para mim. Tu és um exemplo para muita gente e uma vida como a tua deve, apesar dos "mas" que vai havendo, encher-te de orgulho.
Obrigado por seres meu Amigo.

Não posso deixar sem uma palavra, o fabuloso comentário do "Com senso", mas de onde vem, outra coisa não se poderia esperar.

Fortes abraços a ambos.

André Couto disse...

Nestas alturas é habitual dar os parabéns.
Aqui ficam.
Não descobri o teu blogue há muito mas espero que no seu próximo aniversário ainda cá estejamos os dois.
Um abraço.

Tongzhi disse...

Penso que os que te acompanham, através deste teu espaço, estão, com toda a certeza, mais ricos. Mas penso igualmente que tenha sido de grande utilidade para ti. Continuo a acreditar que há coisas que só as sentimos verdadeiramente, para além de as arrumarmos e sistematizarmos, quando escrevemos sobre elas para que outros as leiam.
Para além dos inevitáveis parabéns pela tua prestação, gostava de deixar um abraço de admiração.

Socrates daSilva disse...

Com senso,

Tendo em conta a sua falta de tempo e a situação difícil que está a passar, fico muito sensibilizado com o comentário aqui colocado. Não só o comentário em si, mas o que diz sobre o que tenho escrito. Agradeço, e muito, mas fico sem jeito, pois tenho dificuldade em me rever assim.

Este post, tal como todo a razão de existir o blogue, foi em parte mais uma tentativa de libertação e revolta contra muita coisa na minha vida, da qual só me posso culpar a mim mesmo. Cada vez entendo, melhor a expressão que nenhum homem é uma ilha. Não poderia viver como um sepulcro vivo, com uma fachada e tudo morto por dentro. Não sei onde quero chegar - isto para ser muito sincero - mas, sei que estou a sentir-me mais vivo, mais pessoa, mais vivo.

Obrigado pelo privilégio de o ter como leitor e acompanhante de caminhada. Mas, obrigado mesmo cá do fundo…

Abraço!


Pinguim,
(Este é outro comentário que me deixa… assim…)

Sem duvida que estás presente desde o principio.
Algumas pessoas que comentaram no meu blogue diziam que tinham tomado conhecimento dele através do Whynotnow. Por vezes até me deu a sensação que, informalmente, fazias publicidade do que eu escrevia…
:-)

A verdade é que tens estado sempre presente e disponível. Vejo que essa é uma marca registada tua. Fazes isso como parte da tua maneira de ser e és assim para os que te rodeiam. Da minha parte só tenho que te agradecer.

Claro que também aprecio a tua paciência perante a diferença entre os nossos “dois mundos”. És uma pessoa franca, e habituada a assumir a sua vida sem complexos. Entendo que por vezes as minhas hesitações, as minhas meias-respostas, os meus silêncios e enigmas podem ser difíceis de entender. Mas tenho admirado a tua paciência e empatia pela minha actual postura, típica de alguém que não sabe “onde está o pôr os pés”. Obrigado por essa empatia!

Um grande abraço meu amigo!


André Couto,
Obrigado pelas tuas palavras!
Com certeza que estaremos cá também no aniversário do teu blogue.
:-)
Abraço!


Tongzhi,
Tocas num ponto central. A criação deste blogue começou por ser algo necessário especialmente para mim. Claro que com o tempo fui apercebendo de que outros não só liam e compreendiam o que queria dizer, mas apreciavam. Isso também me enriqueceu e de que maneira!

Obrigado! A minha estima e apreço por tudo!
Abraço!

carpe diem disse...

Caro Socrates ;)...

Um dia alguém me disse, e muito sabiamente diga-se, que procuramos todos o mesmo... Não acreditei muito na altura mas fiquei a pensar nisso... Hoje, passado algum tempo e alguma estrada corrida, concluo que é mesmo uma grande verdade... E à mesmo muito gente que pensa, sente e age de maneira parecida, porque no fundo somos mais parecidos do que pensamos... Tudo isto para dizer que ser um pouco "diferente" é bom e não faz mal, pelo contrário ;)... Eu adoro ser diferente, se é que o sou(!!!)...

beijinhos e bom inicio de ciclo...

The Unfurry Swear Bear disse...

Tenho de admitir que tenho andado desaparecido, mas não deixo de deitar um olho a cada um dos blogues de que gosto mais mesmo se não deixo sempre um comentário, e não podia deixar de deixar aqui um comentário a este texto.
Queria desde já dar te os parabens, porque ficaste a conhecer a ti próprio um bocadinho melhor, e também pela coragem porque foste tu que deste o primeiro passo para tal mudança, para a final aceitares-te a ti mesmo.

Não te conheço pessoalmente mas acho que não é preciso te conhecer pessoalmente para te considerar como um amigo, e no meu caso não tenho sido lá um muito bom amigo com o meu desaparecimento haha, mas tenho a certeza que me perdoas ;)

O teu blogue acho que pode até servir de exemplo para muita gente, uma história de crescimento, e, afinal, de esperança.

Afinal, o que há de mais importante de que nos conhecermos e gostarmos de nós próprios.

(e deixa-lá aquilo de supostamente não escreveres bem, o que não é verdade, eu escrevo bem pior, e por aqui ando haha)

jorgeferrorosa disse...

Este teu espaço é muito interessante. Vou lendo o que escreves. Um abraço

Maurice disse...

Em primeiro lugar, parabéns por este primeiro aniversário.
Depois, é justo dizer-te como foi importante acompanhar-te, ler-te, partilhar contigo preocupações, angústias e alegrias. Foi bom estar contigo ao longo deste ano. Foi bom "conhecer-te". Imagino que este ano de blogue tenha sido difícil para ti em muitos momentos, gratificante noutros. E tu quiseste partilhar tudo isso connosco. No que me toca, sinto-me honrado e orgulhoso pela forma como me deixaste estar a teu lado nalhuns momentos deste teu caminho. E é a altura certa para te dizer que, daquilo que me permitiste conhecer, olho para ti com respeito, admiração e amizade.
Um ciclo se fechou... outros virão.

Forte abraço

Socrates daSilva disse...

Carpe diem,
Venho do teu blogue, onde um post teu mexeu muito comigo, tal a descrição que fazes do que é construir uma vida sem levarmos em conta aquilo que realmente somos. Que bem o fazes…

Sobre o que aqui comentas, só me lembra, de repente, aquele refrão: “Todos diferentes, todos iguais”. Somos diferentes porque somos a soma de infinitas coisas que não encontram paralelo noutro ser humano; somos iguais porque queremos paz, certa medida de felicidade entre outras simples mas difíceis coisas.
:-)
Obrigado. Beijinhos!


Unfurry,
Que vou ter-te aqui!
Bem sei que andas ocupado, e ainda bem! É bom sinal!
:-)
Obrigado pelas tuas simpáticas palavras. Neste ano também deixaste muita coisa escrita em comentários e que foram muito importantes para mim. Obrigado pela tua franqueza e alegria!
Abraço!


Jorge,
Muito obrigado! Também gosto de acompanhar o teu blogue…
Abraço!


Maurice,
(Este é outro comentário que me deixa sem jeito para saber o que dizer…)

És muito generoso na tua apreciação. Eu é que estou grato por tudo, meu amigo! Em parte, repito o que já disse ao Pinguim. Admiro também a tua postura perante as minhas hesitações e medos. Tens sido uma fonte de ânimo e sabes oferecer palavras e raciocínios importantes em alturas essenciais. Acho que não encontro palavras justas para estarem à altura…

Muito obrigado! A honra e o orgulho são muito meus também naquilo que vou conhecendo de ti. Obrigado por me dares o privilégio da tua amizade.
Abraço!

GRITOMUDO disse...

Numa data tao especial como esta, deixo uma frase de conforto.
"O amor é o sentimento dos seres imperfeitos, posto que a função do amor é levar o ser humano à perfeição." - Aristótoles
Muitos parabéns

GRITOMUDO

Vasco Matos disse...

Muitos parabéns! Abraço!

Socrates daSilva disse...

Gritomudo,
Aristótoles, hem?
Obrigado, obrigado pela bonita frase.
Abraço!


Vasco,
Muito obrigado, meu amigo!
Um abraço!