quarta-feira, 23 de abril de 2008

Alentejo da minh’alma


Origem da imagem


Planície como página
este é o chão que procurava
silêncio feito asa
quase pão quase palavra.
Para ser canto
para ser casa.

Manuel Alegre, “Página”, in Alentejo e Ninguém


Ultimamente, dou por mim a pensar no Alentejo.
Tenho duas regiões que me apaixonam: Alentejo e
Trás-os-Montes. Já Miguel Torga dizia que eram “províncias irmãs”. Mas, deixem-me ser franco. A minha paixão desmesurada é o Alentejo. Costumo dizer que tenho uma costela alentejana. Mas, esta afirmação não é tecnicamente correcta. Sou um lisboeta que pelo menos até aos avós não tem raízes alentejanas. E talvez seja mais certo dizer que se tenho uma parte do corpo ligada ao Alentejo, é o coração.
Como apanhei esta paixão? Sinceramente não tenho uma explicação com base científica para o caso. Tenho alguns episódios na minha vida que me dão umas pistas.

Os primeiros sinais
Recordo em criança, aquando de passar pelo Alentejo a caminho do Algarve, ficar com o nariz magneticamente agarrado á janela do carro a ver a paisagem. Planície até perder de vista, manchas de casas brancas tão bem delimitadas em relação ao campo, silhuetas de castelos e torres de igrejas recortadas no horizonte; oliveiras retorcidas, ora solitárias, ora em imensos grupos. Eu simplesmente olhava e sentia que ali estava algo muito importante. Algo que era meu também. Desfrutava muito daquela parte da viagem antes das curvas enjoativas da serra do Caldeirão.

Mais tarde, fomos algumas vezes em família a Beja. Foi a primeira cidade que explorei neste “meu” território. A Torre de Menagem! O Jardim Gago Coutinho e Sacadura Cabral! O Museu Rainha D. Leonor! Neste museu recordo o guia. Entusiasmou-se perante uma criança curiosa. Explicou-me a certa altura que Beja podia ter tantos monumentos como hodiernamente Évora exibe. No passado, um governador da cidade mandou arrasar parte dela a fim de desenhar ruas mais largas e modernas, e que desta maneira se perdeu uma riqueza arquitectónica incrível. Aquilo deu-me pena! Fiz então um juramento para mim próprio. Iria amar sempre aquela cidade que foi expropriada da sua beleza antiga. Sou fiel a esse voto. Confesso que gosto imenso de Évora e outras cidades e vilas alentejanas. Mas, Beja… Beja é a minha querida a quem vou sempre querer…

Partida e regresso
Há algum tempo estive um par de anos a residir no Alentejo. Morar e trabalhar lá foi das melhores coisas da minha vida. Mas, quero agora destacar o que aconteceu quando tive que partir. Senti algo novo no mundo dos meus sentimentos. Ao deixar de madrugada aquela localidade e ao olhar para o espelho retrovisor senti uma espécie de tristeza que nunca tinha sentido. Não era pena ou melancolia. Era como se parte da minha razão de acordar cada dia tivesse lá ficado. Era como se estivesse a ser um traidor, a abandonar quem me tinha dado tudo. Confesso que ainda sinto viva essa sensação.
Passado uns tempos, tive oportunidade de voltar para uma breve visita. Quando vislumbrei ao longe a urbe, não é que me humedeceram os olhos? Não é figura de retórica. Chorei mesmo.

E desde então, longe do Alentejo sinto-me incompleto. Imaginem que já aconteceu ver na televisão imagens do Alentejo, e bem, tenho que ir buscar o lencinho.

Alentejo. Alentejo da minh’alma.
Para mim, não é apenas uma bela região do nosso pais. Para mim é um sentido de viver, uma cadência de sentir, um horizonte de sentimentos.

Eu gostava de vos explicar um dia o que amo no Alentejo. O que o faz ser especial para mim. Mas, hoje não. Ia ser muito longo este post. Quis apenas compartilhar uma paixão. Uma das minhas grandes paixões.

9 comentários:

Rato do Campo disse...

Sou suspeito, logo, apenas agradeço! Aquele abraço! :)

pinguim disse...

Caro Sócrates
também eu, como tu, considero os alentejanos e os transmontanos como as pessoas melhores deste nosso país, e não sou suspeito, pois sou beirão.
Mas o Alentejo, é uma coisa muito além dos alentejanos; vivi lá 4 anos, numa terra linda em todos os aspectos: Serpa!
Chamavam-me o "toyota", que naquela altura tinha uma publicidade que afirmava "veio para ficar"...
Não fiquei, mas o meu coração está sempre lá e lá volto com alguma frequência ver o progresso e rever amigos. Também gosto muito de Évora - quem não gosta? - e lá tive a minha primeira ligação; foram dois anos de muitos fins de semana ali, quando o "Giraldo" era o café não de uma cidade, mas de uma região.
E finalmente há os cantares alentejanos: "Lá vai Serpa. lá vai Moura, e as Pias ficam no meio..."
Abração.

The Unfurry Swear Bear disse...

Sempre tive um carinho muito grande pelo alentejo, os meus pais são alentejanos, e ia lá todos os anos de férias... adorava o alentejo...
Vão me perguntar "adoravas, passado?"... e sim... adorava, no passado, quando fui morar para lá saido da Suiça e mal falava português, fui para o 10º ano, e fui também a rizada de uma escola inteira... Para mim, e tenho pena, mas o alentejo morreu nesse ano...
Ou pelo menos os alentejanos, vão dizer que as crianças são crueis, mas são criadas por adultos, e naqueles sitios tudo se sabe, e os adultos que assistiam também achavam piada...
Passado esse ano, mudei me para o Faro, e estranhamente já nada disso aconteceu
Só queria dar a minha opinião diferente das outras para mostrar que, nem tudo é preto, e branco :D

Não quer dizer que deixei de gostar do alentejo, mas o feitiço quebou-se... somos seres subjectivos, e somos influênciados pelas lembranças que temos dos sitios ;)

Catatau disse...

É muito bonita a maneira como desvendas essa paixão. Nota-se que o Alentejo está "under your skin", como um amor incondicional, onde nem a distância o belisca. E tens razão. Boa gente, boa gastronomia, paisagens de derreter a vista...

Eu, em questão de terras, tenho o Minho no coração, apesar de ser portuense dos 4 costados. Trás-os-Montes está-me também na retina e no afecto. Por tudo o que lá passei e por tudo o que me deu ao longo destes anos. Mas, sabes? Eu não tenho "terra", tenho gente.

socrates dasilva disse...

Rato do campo,
Agradecer de quê? Ele é que tenho a agradecer existir o Alentejo e as suas gentes.
Abraço grande

Pinguim,
Então também tiveste o privilégio de conhecer o Alentejo “por dentro”. Entendo o que contas sobre gostar de lá voltar. Gostei do cantar alentejano também…
Abração amigo

Tusb,
Tenho pena dessa tua má experiência. As pessoas podem mesmo ser cruéis em qualquer parte do mundo. Como dizes, “somos influenciados pelas lembranças que temos dos sítios”; por isso tens toda a razão em teres esses sentimentos.
O que posso dizer é que no meu caso, se me fascinava a paisagem, quando lá vivi o factor humano fez-me conquistar completamente. Fui bem recebido, mesmo sendo de Lisboa. Por isso a minha paixão.
Mas, não quero “obrigar” a todos a dizerem que o Alentejo é o melhor. Estou apenas a compartilhar sentimentos.
Abraço

Catatau,
Ora se tu conheces bem a “magia” do Alentejo.
Também tens boas referências regionais, sim senhor! E essa da “gente” é muito bem metida. É o que é importante.
Abraço

Special K disse...

Não tenho nenhuma costela alentejana mas depois de Trás-os-Montes é a minha região preferida. É sempre um prazer passar por lá, provar a boa comida e a boa bebida.
Meu caro Unfurry, essa rizada não tem nada a ver com o Alentejo. garanto-te que em Trás-os-Montes ou até mesmo em Lisboa te arriscavas a levar com ela. É verdade que as crianças podem ser tão doces quanto cruéis mas a culpa é dos adultos e da sociedade que só ensina a odiar, separar e discriminar tudo o que apareça à margem.
Um grande abraço para o Sócrates e também para o Unfurry.

socrates dasilva disse...

Special k,

Já vi que estamos de acordo nas duas regiões mais “fixes” de Portugal, embora com a ordem inversa.
:-)
Bonitas palavras para o Unfurry. Subscrevo-as inteiramente.
Um grande abraço

Luís Galego disse...

Nasci em Évora e lá vivi até aos 12 anos...regresso pouco, mas quando o faço não é sem uma emoção no peito. Frequentei os Salesianos e morava no extremo da cidade...atravessava todos os dias aquela cidade com os olhos bem abertos. Ficou-me na pele...

socrates dasilva disse...

Luís Galego,
Fica mesmo na pele, ou melhor, debaixo dela. Viver até aos 12 em Evora. Sortudo!
Abraço