segunda-feira, 9 de junho de 2008

Palavras



Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.


Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.


A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar e
é preciso fechá-la na arrecadação.


No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.


A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.


Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão
para apanhares a palavra barco ou a palavra amor.


Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.

A palavra solidão faz-me companhia.

"O limpa-palavras".
Álvaro Magalhães

12 comentários:

Special K disse...

O poeta é sempre um mestre a trabalhar com as palavras.
Não conhecia é muito bonito.
Um abraço.

Catatau disse...

Também não conhecia este poema, mas é muito interessante. Faz-me pensar no economato das palavras... e na forma como elas se insinuam em nós.

The Unfurry Swear Bear disse...

Também não conhecia, que lindo poema, obrigado por partilhares :D

Socrates daSilva disse...

Special k,
Eu também só recentemente conheci este autor. E este poema.
Ainda bem que também gostas.
Abraço

Catatau,
As palavras...
O que dizem e o significado que lhes imprimimos no nosso imaginário.
Abraço

Unfurry,
Foi um prazer, meu amigo!
Abraço

Catatau disse...

Ui. De repente o cenário mudou. Ah ah ah. Olha que tive de me fixar no teu "busto" (rsrsrsrsrs), para me certificar que não tinha vindo ao engano. Isto está giro. É uma refrescadela sanjoanina?! ;))

Tongzhi disse...

Mas que belas "palavras"

Socrates daSilva disse...

Catatau,
De vez em quando tenho que mudar...
o que posso.
É mais inspirado pelo
"São Valhame-Alguma-Coisa"
:-)

Tongzhi,
São bonitas realmente...
Abraço

Kapitão Kaus disse...

As palavras, às vezes, com o uso que lhes damos, gastam-se. Por isso, é importante saber parar, olhar para elas, senti-las e ouvir as suas vozes.

Abraço:)

jasmimdomeuquintal disse...

LINDOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
Valeu a pena vir aqui antes de ir dormir.
Boa noite!

Socrates daSilva disse...

Kapitão Kaus,
As palavras estão vivas, concerteza!
Obrigado pela visita…
Abraço

Jasmim,
OBRIGADOOOOOOOOOOOOOO.
Bjs e bom dia!

pinguim disse...

Palavras para quê?
Para enaltecer estas outras palavras que nos ofereceste num novo "cenário".
Obrigado e vai-nos dando mais palavras.
Abraço.

Socrates daSilva disse...

Pinguim,
Obrigado. Vou tentar...
Abraço