sexta-feira, 23 de maio de 2008

O factor fundamentalista na homofobia – Uma visão muito pessoal




Certa vez Cristo disse que se alguém não se tornasse como uma criança não entraria no Reino do Céu. Esta comparação tentou incutir nos seus discípulos a necessidade de desenvolverem humildade e deixarem-se dos tiques manietos de uma sociedade baseada em convenções sociais preconceituosas. Foi uma boa figura de estilo. As crianças por natureza, pese a sua traquinice, não nascem com ódios sociais pré-concebidos. Infelizmente, aprendem isso ao crescerem quando observam o mundo dos adultos.



Isto vem ainda a propósito do dia internacional da luta contra a homofobia e de ter recebido um powerpoint com imagens chocantes de execuções de homossexuais no Irão, como poderia ter sido em qualquer outro país regido pelo fundamentalismo islâmico. Junte-se a isso as campanhas enérgicas que alguns movimentos cristãos fundamentalistas fazem contra os homossexuais e inevitavelmente lembro-me desta frase atribuída a Cristo. Não é uma questão de estar a criticar alguém que tenha princípios religiosos e procure viver segundo eles. Isso não faço. O fundamentalismo religioso lança sementes de ódio a pessoas que, segundo os seus próprios conceitos, estão a fazer algo horrível, um pecado. A imaginação é o limite para o extravasar brutal deste ódio.


Quando escuto noticias sobre as actividades destas pessoas, lembro-me também de outra citação atribuída a Cristo: «Não julgueis, e não sereis julgados. De facto, sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes e sereis medidos com a mesma medida com que medirdes. Porque olhas para o argueiro no olho do teu irmão e não prestas atenção à trave que está no teu próprio olho? Ou, como te atreves a dizer ao irmão: “Deixa-me tirar o argueiro do teu olho”, quando tu mesmo tens uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu próprio olho, e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão» (Evangelho de S.Mateus 7,1-5)


Claro que nenhuma destas duas citações estão a tratar directamente sobre como um cristão deve encarar um homossexual. Mas, estão a dar princípios basilares a quem se acha uma pessoa muito religiosa. A essência da mensagem de Cristo é: Cuida da tua vida que já tens muita coisa para te preocupares. Se outros estão mal, deixa-os que o assunto será cuidado por quem de direito.
Nisto é que sempre me pareceu uma contradição a atitude dos fundamentalistas religiosos, sejam muçulmanos, sejam cristãos, sejam de qualquer quadrante religioso. Arvoram-se tão pios e exemplares na sua devoção, em obrigar outros a também o serem e a punirem quem não os imita, que nem ligam para esta verdade.
Exemplifiquemos: Quando um homossexual é executado num pais árabe, qual é a razão? “É pecado. Ofende a Deus”, dirão. Quando certos grupos de inspiração cristã ocupam-se veementemente em campanhas anti-homossexuais, qual é a sua motivação? “É um pecado contra Deus. Eles irão para o inferno.”, gritarão em coro.
(Creio que neste ultimo caso, eles só ficam nesta conversa e não passam á acção porque as leis dos seus países não permitem matar pessoas pela sua orientação sexual, senão iriam alegremente buscar pedras para atirar.)


Aqui entra a questão.
Porque têm estas alminhas que fazer a justiça pelas suas mãos? Será que o Deus Todo-Poderoso que veneram não tem poder para lidar com o assunto? Precisa de uns reles instrumentos humanos?

É compreensível que certo tipo de comportamentos não sejam consensualmente aceites por todos. Entendo que quem faz uma leitura mais ligeira de livros sagrados como a Bíblia ou o Alcorão até pode entender que o homossexualismo não é aceitável. Mas, nunca encontrei um bom argumento para que se devesse tomar na mão a execução daqueles com quem não concordamos. Cristo, como nos ensinos que atrás fiz referencia, sempre teve esta mensagem: Cumpre a tua responsabilidade, ajuda os outros e Deus, como juiz final, cuidará dos que estão mal. Mas, esta espécie de religiosos, os fundamentalistas, não devem ter uma grande fé em Deus. Devem achar que Ele é lento ou permissivo. Assim, que decidiram tomar a execução da justiça divina nas suas mãos. A “filosofia” fundamentalista é: “Temos que acabar com a raça dos pecadores, porque senão Deus não sabe cuidar deles!”


Claro, que sempre existe a hipótese alternativa. É que afinal eles desejam tanto fazer o mesmo e com raiva de não poderem, atacam aqueles que o fazem.
( Afinal, homophobia is so gay!)

Assim a posição dos fundamentalistas religiosos é um pouco incómoda: ou não acreditam no poder de Deus ou então são homossexuais frustrados.


A tremenda incoerência que as cruzadas fundamentalistas representam é gritante. Bastava usar a sua maior arma – a Bíblia, no caso dos cristãos – para levarem o maior dos atestados de incompetência. Muitos invocariam: “À pois, mas o Antigo Testamento condenava-os á morte…”
A evocação desse argumento é patética. Porque não seguem então essa gente todos os preceitos do Antigo Testamento? Não se lembram de quando uns sábios queriam apedrejar uma mulher “de má vida” que Cristo se negou diplomaticamente a apoiar essa “justiça” e disse as celebres palavras: “Quem de vós não tiver pecado, atire-lhe a primeira pedra”?
Mas, é típica a estratégia de um fundamentalista. Usa apenas algumas passagens avulsas do seu livro sagrado; as que lhe interessam. Repete-as até á exaustão e tem amnésia controlada do contexto, ou então desvaloriza-as a seu bel-prazer.


Não tenho minimamente receio de um hipotético julgamento pelo Criador. Se tenho tendências homossexuais elas não nasceram de geração espontânea. Foram fruto de alguma coisa que existe ou em mim, ou na natureza da vida, ou no que me rodeia. Quem criou tudo? Pois se Deus criou tudo e existem factores que condicionam certos humanos a sentir a sua sexualidade desta maneira, Ele deve ter muito que explicar quando julgar algumas pessoas.


Os fundamentalistas são dos melhores argumentos que existem para alguém duvidar da existência de Deus. A sério! Pensar que Ele daria uma base doutrinal e moral a essa gente para odiar mortalmente a outros humanos e depois os recompensaria com o céu até me faz vomitar. Que paradoxo seria esse? Que Deus nos daria conceitos de amor, piedade, humanitarismo e paz e depois usava como sua “guarda de elite” essas pessoas? Quanto mais um fundamentalista fala, grita, escreve, bate e mata, mais pessoas deixam de acreditar em Deus.
Assim, faço um apelo. Se alguém for um sincero fundamentalista e desejar ardentemente converter outros ás suas ideias, pense no que diz e faz! E assim, bem-educado e respeitador da liberdade de cada um, e também a ajudar as velhinhas a atravessar a rua, pode ser que ainda tenha sucesso em convencer alguém.


6 comentários:

pinguim disse...

Há uma frase muito marcante no teu texto, quase ao fim, quando afirmas que os fundamentalismos são uma dos principais argumentos para negar a existência de Deus; mas infelizmente quem pratica esses fundamentaismos, está, segundo eles, a fazêlo em nome do seu Deus; será que são assim tão profundas as diferenças entre diferentes credos? Então o Deus não é só um, Cristo, Buda, Alá...?

Special K disse...

Eu já disse isto uma vez, penso que Deus não existe mas se Ele realmente existir, então foi ele que nos criou da maneira como somos. Se temos uma certa orientação sexual é por vontade dele. Então homofobia vai contra a vontade de Deus.
Os fundamentalistas não são só aqueles maluquinhos que andam para aí a explodir-se com bombas. Nós por ca temos muitos e bem escondidos na sociedade portuguesa, basta ver a influência que a Opus Dei tem na política, na banca e na economia portuguesa. também há um abominavél César da Neves que se pudesse era o primeiro a apedrejar homossexuais e mulheres que tenham feito abortos.
Um abraço.

Tongzhi disse...

Eu penso que existe uma grande diferença entre a "palavra" de Deus, que "possivelmente" será transmitida nos livros sagrados e a interpretação que os homens dão, a seu belo prazer. Este é um problema de tudo que se transmite metaforicamente...
Assim, a forma como vai sendo transmitida a interpretação desses textos, vai tendo força de "lei". Mas que lei???
Custa-me a acreditar que em qualquer credo ou religião, se possa acreditar num Deus que é punitivo e vingativo.
Belo texto, este que o Sócratres escreveu, e que nós faz reflectir sobre estas coisas dos "ismos"

Socrates daSilva disse...

Pinguim,
Primeiro, tenho que agradecer-te o compartilhares comigo o dito powerpoint. Estas fotografias chocaram-me! Olhei para esta dos dois rapazes e pensei que eu podia estar ali, porque os “crimes” deles são os mesmos que o meu. Penso que esta imagem irá acompanhar-me para sempre.

Segundo, sempre olhei com desconfiança para pessoas fanáticas ou fundamentalistas. Agora, tenho medo. Medo do ódio que espalham em nome de um Deus que, a existir, nada tem a haver com elas.

Isto fez-me tomar uma decisão. Não quero ser um “fundamentalista anti-fundamentalista”. Mas, seja qual for as possibilidades que no futuro tenha, hei-de lutar contra esse ódio por denunciá-lo e gritar a sua estupidez.
Já morreu muita gente por tantas razões absurdas… Posso não fazer a diferença, mas farei a minha parte.
Abraço


Special k,
A homofobia bem como todos os ódios baseados em estereótipos são nojentos, abjectos.
Tens toda a razão em apontar esses exemplos de fundamentalismo latente e pronto para atacar na nossa “culta” civilização lusitana.

Eu não me importo de que alguém me diga na cara que não gosta de mim ou de algo que represento ou faço. Tem o seu direito. Mas, essa diferença de conceitos ser a semente de um ódio assassino a outro humano é algo que não entendo, não aceito e não tolero.
Abraço


Tongzhi,
Obrigado pelo elogio! Mas, isto foi interiormente sentido…

Fui criado com valores cristãos, e mesmo que actualmente esteja em crise espiritual, nunca me lembro de aprender algo que justifica-se defender o assassinato de outro humano que não prejudica ninguém, só por suas opções na vida. A ideia sempre foi: “Está mal? Deus o ajude…”

Concordo. Lei. Que lei? A que cada um modela segundo as suas conveniências.
Abraço

The Unfurry Swear Bear disse...

Também fiz um post sobre essa vergonha há 1 ano se me lembro bem, o governo iraquiano e iraniano suporta e participa nos enforcamentos e apedrejamentos de homosexuais alguns só com 14 anos, ou ainda, quem nunca ouviu falar das "filhas indignas" mortas pelos pais nesses paises...
Só espero que esses fanaticos e outros bombistas suicidas passem a eternidade com as suas 12 virgens numa bola de fogo no inferno

Socrates daSilva disse...

Unfurry,
E são poucas as vezes as que repetirmos este "grito" de indignação.

Não se trata apenas do ódio a homossexuais, por principio, trata-se também do ódio de morte a tudo o que esta gente não gosta.
E, como tinha já dito o Special k, não é só o mundo muçulmano... Podemos muito bem ter um fundamentalista de estimação bem ao nosso lado no metro!
Abraço