terça-feira, 13 de maio de 2008

Soneto

Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu próprio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.


Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!


Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!


E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento



António Botto
Aves de Um Parque Real
As Canções de António Botto
Editorial Presença
1999



É um pouco “dejá vu”, mas aconteceu que um comentário no meu post de ontem continha esta pérola com dedicatória e tudo…
Era uma pena não lhe trazer mais visibilidade. Acho que fazer dele o meu post de hoje é mais do que justo. Mas como ainda estou naquela “onda” de turbulência mental, vou utilizar o sistema numérico para divagar um pouco.


1
António Botto era para mim, até á pouco tempo, apenas mais um nome de um poeta português e pouco mais. Foi aqui na blogosfera que fui exposto á grandeza e sensibilidade da sua obra. Fiquei abismado quando soube os elogios que colheu por esse mundo fora da parte de celebridades como Miguel de Unamuno, Virginia Wolf e James Joyce, enquanto foi uma espécie de poeta maldito na sua época. Acho que hoje ainda está pouco difundido. Quando o amigo Special K, o enumerou num seu post como autor de um dos livros mais marcantes para si - “Canções”- foi o incentivo que me faltava para mergulhar na sua obra. Este “Soneto” é de facto algo especial, numa perspectiva muito minha. Assim, BINGO!

2
Apesar de no comentário o Catatau nomear a quem dedica o poema, não vai ficar ofendido por eu ter a ousadia de incluir outros nessa dedicatória.

Para o Catatau, pelos seus comentários que evocam imagens com uma eficiência fulminante.

Para o Pinguim, que no fundo é quem está na base destas conexões. Usando como analogia um assunto recente, o pinguim é o “maestro”, o “Nº10”. Faz jogo e põe toda a equipa a jogar com a sua entrega e generosidade. Já á algum tempo que num post meu elogiei a sua postura. E eu não sabia “da missa a metade…”

Permitam-me com toda a dignidade vos dizer: Gosto muito de vocês, amigos!

11 comentários:

Catatau disse...

Oh rapaz... Dá-me cá um abraço apertado! :))

jasmimdomeuquintal disse...

Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!que belo, doloroso e profundo.
Tudo de bom!

O Fugitivo disse...

Nunca me esqueço que a primeira vez que ouvi falar de António Botto foi, há muitos anos, na escola, através de um comentário homofóbico de um professor. Só serviu para me aguçar o interesse!
Um abraço
Daquele que agora se dá pelo nome de
Fugitivo

Moi disse...

O sentido que agora em post este poema ganhou na minha situação actual... Agradeço Sócrates (e ao catatau pela lembrança!) e concordo com o elogio ao motor imperial que é o Pinguim!

Abraço (e vê lá se param de fugir ;))

Special K disse...

Sócrates, fico muito sensibilizado por te ter ajudado a conhecer melhor este poeta enorme.
A idéia que tens do Pinguim, é exactamente a mesma que eu. foi depois de o conhecer que comecei a tomar contacto com quase todos vocês.
Ainda sensibilizado com esta dedicatória mando-te um grande abraço.

Tongzhi disse...

Eu conheci António Botto pela "mão" de uma professora que muito me marcou. Ainda um dia farei lá no meu cantinho um post dedicado a ela - Virgínia Inês de Castro Lima Markus!
Quanto ao post, acho excelente e muito justo!
Assino por baixo das duas excelentes pessoas que referes.

pinguim disse...

Amigo, qualquer dia encolho (deve ser dificil), com os elogios, e desapareço.
António Botto, o poeta maldito, escreveu no seu livro "Canções", as mais belas poesias homoeróticas de toda a literatura portuguesa, algumas de antologia como aquela que começa assim: "Um homem como tu, lavadinho ,todo nu, gosto..."
É um dos livros da minha vida e considero Botto ao nível de uma Florbela, de uma Sophia, de um Andrade, de um Al Berto, de um Pessoa (ai esta heresia, lá me caem os "pessoanos puros" todos em cima).
Aconselho vivamente a quem n´~ao possui o livro que o compre, não basta lê-lo, tem que ser nosso para o ler e reler vezes sem conta.
Abraço a todos.

Paula disse...

Homenagem à poesia!

Lindo blog!
Abraço

Socrates daSilva disse...

Catatau,
Oh moço! … Recebe lá um bem apertadinho!
:-)


Jasmimdomeuquintal,
Ainda estou na parte das cicatrizes.
Mas, é bom ler estes poemas que nos dão a esperança de que vale sempre a pena…
Obrigado! Bjs


Fugitivo,
Lembras-me aquele que diz: “Mais vale que falem mal de mim, do que me ignorem”.
Um grande abraço amigo


Moi,
O Catatau foi o responsável por esta romaria de sentimentalismo!
Espero que tudo corra bem contigo. Vivam as rosas!
(Eu espero que a fuga um dia termine. Pelo menos já deixei de fugir de mim próprio, o que para começar não é mau.)
Abraço grande

Special k,
Meu amigo, quando afirmo que enriqueço com a companhia dos outros, está é uma prova.
Aprecio o teu esforço em manter, não apenas um, mas vários blogues que são uma autentica “mina”.
Um grande abraço


Tongzhi,
Venha de lá esse post! Para falar bem dos professores tens toda a minha atenção.
Abraço grande


Pinguim,
Não desapareces não! Elogiar com razão nunca fez mal a ninguém.
Sobre o Botto, tens toda a razão. Faz tão bem lê-lo.
(O pior é depois…)
Hei-de ter um lugar na minha biblioteca, sem dúvida.
Obrigado e um abraço grande

Paula,
A poesia merece!
Obrigado pelo elogio, vou me esforçar para fazer jus a ele.
Abraço

sp disse...

Então, não escreves??
Ai ai ai esse preguiça :)
É só para dizer que estive por aqui!
Um abraço.

Socrates daSilva disse...

sp,
Não é preguiça, meu amigo. É o maldito tempo que não estica...
Obrigado pela presença e estimulo.
Abraço