quinta-feira, 17 de julho de 2008

100



Este é o centésimo post.
Cem. Número redondinho, mesmo bonito. Gosto dele!

Desde que me apercebi que já ia no post noventa e qualquer coisa, que comecei a pensar o que havia de escrever no post centenário. Assim, para entrar no espírito da coisa, comecei há alguns dias a ler todo o meu blogue desde o início. Como se o estivesse a descobrir pela primeira vez. Foi bom. Á medida que o ia lendo, nem acreditava que tinha conseguido escrever algumas das coisas que revi. Com a distanciação, pareceram-me discursos escritos á pressa e abandonados ali para um canto, na esperança que ninguém soubesse quem os deixou ali. Reconheço agora que isto começou por ser um processo libertador. Senti-o primariamente como um auto confronto; um esfregar na cara aquilo que realmente sou. Epistolas repletas de palavras, sentimentos, duvidas, raivas e sei lá o que mais.
(Isto é mesmo surrealista! Nunca tive coragem de escrever um diário de papel com receio de um dia ele ser encontrado e lido; agora escrevo em formato digital onde todas as pessoas podem ler..)

Também tirei tempo para reler todos os comentários. Foi uma das partes mais emotivas. Muito sinceramente! Foi um factor que de inicio me fez hesitar escrever um blogue. Pensava que ia ficar para um canto, sem visitas, sem comentários. E então o sentimento de isolamento iria aumentar; eu iria ter mais uma vez a sensação de perder uma oportunidade; estaria afinal ali a prova acabada de que era um ostracizado.

Mas, tive mesmo que arriscar. Já começava a sentir que na minha vida não tinha mais nada a perder. O resto da história já se sabe. Aliás, alguns que estão a ler isto são responsáveis por eu ter chegado ao post número cem. Não sei se alguma vez conseguirei expressar com a devida fidelidade o que cada comentário deixado por cada um de vós significou para mim.

Cem posts não é só um número para recordar, não é só um olhar para trás. Quero usá-lo como pretexto para olhar para a frente.

Voltaria hoje a iniciar um blogue?

Esta é A PERGUNTA. Mesmo sentindo ainda uma batida nervosa cá dentro diria, sim. Por vezes tenho dias em que acho que foi uma insensatez começar a expor-me, noutras alturas acho que foi o caminho certo. Miguel de Unamuno disse certa vez:"Há momentos em que silenciar é mentir". Consegui assumir o mais elevado nível de autenticidade que já tive na minha vida. Isso foi um facto. Consegui deixar de ser silencioso e consequente, mentiroso. Consegui aqui ser genuíno. Consegui dizer o que em algumas alturas nem tive coragem de pensar com todas as letras.

Ainda não sei o que vou fazer com este capital acumulado. Dizer apressadamente que vou fazer isto ou aquilo por enquanto ainda é demagogia. Desejava ser genuíno noutros níveis da minha vida. Mas, existe muita coisa em jogo na vida de uma pessoa, não se trata de um dia acordar e dizer que vou ser feliz custe o que custar.

Há algum tempo atrás, cada dia meu era apenas a soma de minutos e horas; o cumprir mecanicamente um calendário insonso. Hoje, existe algo cá dentro. Sei que não vai ser “do pé para a mão” que vou dar a volta a isto. Mas, já tenho uma noção do lugar que posso ocupar neste mundo, se tiver a coragem e o bom senso de o saber conquistar


Quero dedicar este post. O cem.

A quem se deu ao trabalho de ler, de dar a mínima credibilidade a esta palavras desesperadas e um pouco esquizofrénicas.

A quem se deu ao trabalho de dar troco, de apoiar, de criticar ou de apenas dizer que esteve cá.

A quem simplesmente leu e nunca escreveu um comentário. Essa visita para mim também conta muito.

A quem quis ultrapassar o blogue e dar algumas palavras “off the record”. (Confesso que foi uma das coisas que mais nervoso me pôs de início. Mas, ainda bem que o fizeram.)

Também a quem eu gosto tanto de compartilhar palavras de amizade.


17 comentários:

Tongzhi disse...

Ser o primeiro a comentar um post destes é, simultâneamente, uma honra e uma responsabilidade.
Deveria fazer um apanhado de tudo o que escreveste e, a partir daí, dar uma "achega"...
Mas não. Vou apenas "tirar" uma ideia. Hoje, depois de 100 posts e tudo o que isso envolveu, és um homem mais rico interiormente. Apenas por isso, e na minha modesta opinião, VALEU A PENA.
A finalizar,
Aquele abraço

Catatau disse...

Pois olha Sócrates, eu digo - por mim - que valeu bem a pena. Topei-te pela 1º vez no Whynotnow e achei o teu banner e o teu nick duas delícias. Começei, a princípio, só a prestar atenção aos teus comentários. Depois passei ao Castelo. Ia lendo (para trás também), ia lendo sempre, quotidianamente e sem comentar. Gostava de vir cá e não dar palavra. Não tinha confiança e sou tímido (sou um falso extrovertido).
Decidi-me finalmente na semana do 2º jantar de bloggers, não porque quisesse colocar-me up to date com um maior número de pessoas, mas porque me convenci que a timidez na net é uma parvoíce e as pessoas têm todo o direito de saber que são apreciadas.
É o que se passa contigo. Aprecio-te muito, Sócrates. Pelo que dizes, pelo que não dizes, pelas meias-tintas, pelas empreitadas de revelação que empreendes, pelo gosto que tens em comunicar, pela simpatia que evidencias...
Gosto de te ler. Gosto de te saber aí. Gosto de ti pelo que entendo que és. Pela contenção e pelo esforço de nudez. Pela luta que adivinho e pela sensatez que subentendo. Dou-te os meus parabéns, rapaz, dou-te os meus mais sinceros e calorosos parabéns. E também te dou um belo abraço. Virtual, mas cheio de gosto. :)

The Unfurry Swear Bear disse...

Para dizer a verdade não me recordo de como vim aqui parar haha, deve ter sido naqueles dias de cusquice em que me apetece ver quem é que está a comentar o quê (ou senão pode ter sido o cheiro do chocolate que me levou a cá chegar).
Tenho de admitir que só há poucas semanas é que percebi o teu tenro e cruel dilemna, tanto porque sou um tonto distraído nalgumas coisas, como porque sou um leitor desnaturado que não lê os posts antigos dos amigos haha
Ainda bem que criaste este blogue, digo eu como mero leitor, tanto por ti, aliviar stresses e tenções, assim como para não te sentires (tão) sozinho, como por nós, que temos imenso prazer em ler o que escreves.
Este texto por exemplo, está fantástico. Eu gostava de conseguir escrever assim, mas os meus textos costumam acabar em pescadinha de rabo na boca (tão bom... só falar disso estou a ficar com fome... não, Romeu, fica quieto, olha a dieta... vais ganhar os 100g que perdeste!! ... buaaahhh)
Talvez vás ao próximo jantar! e se não te sentires a vontade, escondes-te ao meu lado, que desapareces... o Special K que o diga haha ele não se escondeu, mas estava escondido :D
Bem eu se não acabo com este comentário, a QuerCUS vai se queixar que ando a gastar muitas arvores digitais em papel digital (já que existe papel vegetal... falando de isso, será que o papel não é todo vegetal? vou é deixar esta duvida existencialista para outra altura)
Um grande abraços, parabéns pelos 100 posts, e ainda bem que andas por cá, sem ti, não escreveria tantos disparates seguidos num simples comentários :D

Catatau disse...

começei = comecei (é o que dá começar a escrever "começava" , apagar parcialmente e optar por escrever comecei). :D

Special K disse...

Já muito foi aqui dito. Só tenho a acrescentar que foi um prazer descobrir-te. Espero continuar a desfaze-lo por mais algumas centenas de posts.
Parabéns e um grande abraço

pinguim disse...

Meu querido Amigo
tens razão; números redondos devem ser vistos, e comemorados de outra forma.
100 posts!!! Já!!! Parece que foi ontem, depois daquela hesitação primeira, que te li, e devo dizê-lo, sem falsa modéstia, que te comecei a "entender" muito cedo, e a apoiar-te, pois se não tivesses apoios nessa altura, seria talvez fácil, desistir.
E desistir, seria muito mau para ti; principalmente nessa altura.
Aprendi ao longo destes 100 posts a conhecer-te melhor (e com a ajuda de outros meios extra-blog) e a tirar um retrato bastante perfeito e muito positivo de ti.
Aprendi essencialmente a ser teu AMIGO!
A tua luta, que em certos pontos já venceste, é árdua e requer muito equilíbrio e bom senso, mas é irreversível.
Tens ao teu lado muitos amigos e estarás muito menos só do que por momentos possas pensar. Só, e também por isso valeu a pena.
Um enorme abraço que quero acreditar será real, não muito longe no tempo e FORÇA!

Socrates daSilva disse...

Tongzhi,
Ter um imperador logo a abrir… Isso é que é uma honra para mim!
Bem, agradeço o teu comentário e, de certo modo, é isso que sinto. O ter começado a ser mais verdadeiro (oh! Quanto me falta…) é sem duvida um valor imenso.
“Vale sempre a pena…”
Obrigado mais uma vez por tudo.
Um grande Abraço

Catatau,
Sabes que tens um jeito especial para me deixares sem saber o que dizer depois? Esta é uma dessas ocasiões.
Foi interessante saber como cá chegas-te. E aprecio muito que tenhas vencido essa timidez (tímido mesmo?) Deixas-me sem jeito para dizer mais. Obrigado. Obrigado mesmo pelas tuas palavras de hoje e as do passado. Aprecio muito também a tua postura na blogosfera.
Um grande abraço

Unfurry,
Sabes que mesmo quando desabafo tristezas neste espaço, normalmente os teus comentários, com boa consistência, vêm acompanhados de um sentido de humor tão teu, que me arrancas umas gargalhadas “contra natura”. Obrigado e não deixes de ser assim!
Um grande Abraço

Special k,
Tem sido um imenso prazer conhecer-te pela escrita, quer aqui, quer dos teus blogues. És um amigo regular em visitar esta casa e com quem se aprende muito. Obrigado também!
Um grande abraço

Pinguim,
E a ti que te posso dizer? Repetir o que nunca me canso de dizer. És alguém que se importa, que se mexe quando vê alguém em apuros. (“Uma espécie de pára-raios de pessoal em apuros…”)
Basta a evidencia que quase toda a gente conheceu o meu blogue via Whynotnow. Obrigado assim, meu amigo.
Um grande abraço

Ophiuchus disse...

De um vulto em sombra sentado sozinho num banco até um célebre pensador com bigode... Sempre é um melhor final do que o meu antigo - é um novo começo!

Só para terminar: nós é que agradecemos! Uma óptima redenção!Abraço A_pertado

Socrates daSilva disse...

Ophiuchus,
Ena, ena, que memória!
Grato estou eu também e especialmente!
Com ou sem redenção, recebe um grande abraço

Graphic_Diary disse...

Venho aqui há já algum tempo também. Sou pouco dado a comentar, ficando-me normalmente pelas leituras. Cheguei aqui, pois claro, através do Pinguim, gostei e fui passando sempre que há novidades - maravilhas do Google Reader!
Que continues o teu percurso, a tua jornada de libertação e venham mais cem, mil, cem mil posts para que continuemos a acompanhar-te no caminho.

Socrates daSilva disse...

Graphic_diary,
Obrigado pela tua presença.
Obrigado pela companhia.
Obrigado pelo incentivo.
Abraço

Maurice disse...

Como sabes, tenho andado arredado da blogosfera... Mas hoje passei por aqui e não podia saír sem te deixar um grande abraço, de felicitações e de ânimo. :)

Socrates daSilva disse...

Maurice,
Obrigado!
Um abraço

Paulo disse...

parabéns pela persistência, pela coragem, pelos desabafos e exposição! é verdade que o mundo não muda por sermos sinceros e nos expormos, mas muda o NOSSO MUNDO, a nossa perspectiva das coisas. é preciso muita coragem para isso, para persistir, mais ou menos virtualmente, mais ou menos off the record. o importante é que sejas tu: genuíno como és nas palavras e corajoso a descobrires-te. este mundo de blogues pode ter muita coisa má, mas sinceramente as boas, como o centésimo post, são de sobrevalorizar muito!
um grande abraço!

Socrates daSilva disse...

Paulo,
Obrigado pelas palavras. É importante que alguém da “vida real” me diga o que dizes. Espero continuar á altura delas.
Um grande abraço

Paulo disse...

Uma vez encontrei uma frase no metro do parque em lisboa (nada de piadas que até é das estações mais bonitas do metro) que me marcou e nunca mais esqueci. é de Gilles Deleuze: "A ética é estar à altura do que nos acontece". É um princípio imenso, quase impossível. Mas vale a pena irmos dando o nosso melhor! Ou seja, resumindo, estarás à altura do que aparecer pela frente desde que seja isso o que queres!
outro abraço

Socrates daSilva disse...

Paulo,
Que duas grandes frases.
A de Gilles Deleuze, e a tua!
Abraço (outro)