segunda-feira, 7 de julho de 2008

Mestre ou escorpião

Num certo país oriental, um mestre e seu discípulo viajavam. Ao passarem perto de um rio, observaram um escorpião a ser arrastado pela corrente.
O mestre parou e decidiu tirá-lo da água, mas quando pegou nele, o escorpião picou-o. Como reacção instantânea à dor da picada, largou o animal que caiu novamente à água. O mestre voltou a tentar tirá-lo, e pela segunda vez, o escorpião picou-o.

A esta altura o discípulo, intrigado, pergunta-lhe:
- Mestre, porque continuar? Não entende que, de cada vez que tentar salvar o escorpião, voltará a ser picado? Além disso que falta faz um bicho desses?
O Mestre olhou para ele e replicou:
- A natureza do escorpião é picar, mas a minha natureza é tentar ajudar.

Dito isto, o Mestre apanhou um ramo de uma árvore e estendendo-o, conseguiu salvar o escorpião, sem ser picado.



Já escutei várias vezes esta história, com variações nos detalhes. Igualmente, distintas lições foram destacadas por quem a contava. Poderia ser tentador usá-la como achega para a ideia de que somos uns míseros peões sem vontade própria, neste imensamente grande e indistinto tabuleiro de xadrez que é a vida; que não adianta tentar corrigir defeitos no nosso carácter, porque somos como somos. “Dejá vu…”

Mas, faz algum tempo, ao deparar-me novamente com esta narrativa, deu-me uma espécie de paragem cerebral. Não consegui avançar para outros pensamentos enquanto não a enfrenta-se e dialoga-se com ela. Assim, parei, e tive mesmo que o fazer.

É que cada vez mais se dilata em mim o espanto perante uma descoberta. A descoberta de quão pouca liberdade verdadeira temos realmente na vida. Quantas vezes eu pensava ter feito uma escolha certa, aquela que me daria mais benefícios e que estaria em sintonia com o ecossistema que me rodeava; e quantas vezes algo misterioso e intruso me deitou ao chão e confundiu os meus pontos cardeais. Quantos raciocínios ponderados, planificados e assumidos; e quantas vezes uma substancia sem classificação, vinda de uma sexta ou sétima dimensão, assumiu o comando dos meus pensamentos e descaradamente amachucou, como a um papel inútil, o que era vital para mim.

Chego á conclusão que o que tive durante muito tempo, longo tempo, tempo demais, foi uma ignorância tremenda, uma cegueira quanto á realidade. Cria piamente na liberdade total do ser humano. Éramos o que queríamos, quando queríamos e como queríamos. Tudo estava ali, na palminha da mão.

Já tive o tempo suficiente para perceber que - embora os entendidos ainda discutam muitos pormenores - a realidade é que aparecemos neste mundo com uma “receita” elaborada pelos nossos genes e “temperados” pelo ambiente e educação recebida. O que podemos depois efectivamente escolher é tão pouco, se é que o podemos de facto fazer. Se calhar temos apenas a ilusão de termos algum poder. Sorte terá aquele que, em tempo útil, tem a sabedoria para perceber este jogo, e sobreviver como pode, num mundo que se está nas tintas para pelejas internas.

De que maneira brusca fui acordar para a realidade! Que luz intensa de um meio-dia de verão me apareceu subitamente diante dos olhos habituados á mais indistinta da escuridão. Como entendo o que se passa na cabecinha de um coelho quando é encadeado pelos faróis de um carro. Confuso e estupidamente paralisado. Prontinho para a ser atropelado sem que saiba o que lhe realmente aconteceu.

Bem, voltando á história inicial. Quis tentar convencê-la a deixar-me escolher entre ser o escorpião e o mestre. Quis dizer-lhe veementemente que quero ser o mestre. Ele pelo menos á terceira percebeu como levar a sua natureza avante sem se magoar. Creio que o escorpião essa lição não ia aprender…



16 comentários:

The Unfurry Swear Bear disse...

A diferença entre o animal e o humano é que o animal é levado pelo instinto, e o homen é um ser biosociocultural que devido a sua plasticidade (versatibilidade) pode aprender, e até ir ao encontro dos seus instintos, não cagamos no meio da rua quando nos apetece por exemplo.
Dizer que somos prisioneiros dos nossos genes é como que arranjar desculpas para tudo, há coisas que não pudemos mudar, e há outras que podemos. Posso dizer que sou gordo porque os meus pais são gordos, ou simplesmente posso assumir que sou guloso e não me privo de boa comida!
É como que acreditar no destino, talvez não haja coincidências neste mundo, e tudo não passe de inevitabilidades, mas no final, temos sempre um cruzamento, e temos uma escolha, que somos nós que fazemos e não o destino, genes, ou o homenzinho nas nuvens...
Abraço, e para ti, não para o gato haha :D

pinguim disse...

O Swear fez um comentário magnifico, ao qual pouco posso acrescentar; no entanto, penso que a margem de manobra do ser humano é bastante mais ampla do que referes; e na tua história, o que acontece , acontece entre um ser humano e um animal; na realidade, na vida de todos nós, as opções que se nos põem e a forma (margem) de as resolver tem muitas "nuances", acredita nisso...
Abraço.

Arion disse...

Já ficou quase tudo dito. Limito-me a acrescentar que há uma coisita preciosa de que, na minha opinião, não devemos abdicar, por muito difícil que seja: chama-se Livre Arbítrio! Abraço!

Catatau disse...

Há muito de humano em nós, pronto a surpreender-nos. O que é bonito é precisamente a reflexão sobre o que se faz, a análise das nossas atitudes, a possibilidade de aprendermos com elas.
O escorpião não aprende, mesmo que improvavelmente lhe condicionares o reflexo. Nós aprendemos. reconhecemos e traçamos planos, estratégias e percursos. Os teus horizontes vão-se alargando na exacta medida em que pelo contacto, pela partilha e pelo suporte social te enriqueces.

A aurora da tua realidade já começou há muito. Não tens rémdio senão fruir dela. Seja controlado pelo que tens, seja livre para o que queres. Seja prisioneiro do que te move. ;)

Socrates daSilva disse...

Unfurry,
Entendo o que dizes. Claro que temos uma margem de manobra para decisões e evolução pessoal, que os animais não têm. Mas, também está provado que os animais apesar de serem guiados pelo instinto, também aprendem, tomam certas decisões e adaptam-se. (Hás-de ver isso com o teu lindo gato… )

Mas, voltemos aos humanos. Usando o teu exemplo. Se uma pessoa é gorda e diz: sou guloso, não consigo parar de comer! Ora bem, porque é que uma pessoa não controla a forma de se alimentar e outra sim? O que faz uma pessoa agir de uma maneira e outra numa situação similar ter uma decisão diferente? Há diversos factores, decerto. Mas, não poderá uma estar geneticamente preparada para ser mais controlada e outra não? Não poderá uma ter tido uma educação que incentivava a disciplina e a outra não? Isso não vai influenciar a sua reacção como adulta perante uma situação como ser saudável a comer?

Na minha situação. Porque alguém entendeu que era homossexual a tempo de tomar certas decisões importantes na vida e, outros sentindo o mesmo, tomaram candidamente decisões que o levaram para um beco sem saída? Olha que não foi por querer! Concerteza, o feitio mais tímido e a força da educação que recebeu podem estar entre algumas condicionantes que o privaram de usar a liberdade para ter feito uma escolha responsável.

Entendes, o que sinto, meu amigo?
Abraço


Pinguim,
Em parte já respondi ao assunto no que disse ao Unfurry.
Mas, também posso dizer que se pode ter mais hipótese de se ser um pouco mais livre quando estamos informados e de mente aberta, e dentro daquilo que são os princípios bases da nossa personalidade.
Não é estar no contra. É ter necessidade de “abrir a minha despensa” e tirar a tralha toda cá para fora. Expô-la, discuti-la, ver o que vale a pena guardar e o que é para deitar fora.
Tenho que lidar com os meus fantasmas, por mais ridículos que sejam.

Abraço


Arion,
O livre arbítrio! Quantas coisas condicionam o livre arbítrio…
Seremos mesmo livres de escolher? Será que basta eu desejar escolher algo para o conseguir fazer? Para ser justo fazer? E os outros?
Conseguirei ter a lucidez necessária para saber escolher agora, quando no passado fiz escolhas das quais me arrependo? Por que usei o livre arbítrio contra mim? O que me garante acertar agora?

Abraço


Catatau,
Eu entendo o percurso progressivo que os humanos conseguem ter. Estou literalmente a aprender.
Mas, o entender melhor o que se passa comigo é parte do processo. Como fruir deste resultado é o que está a angustiar. Nunca mais posso voltar atrás. Nunca mais posso fechar este blogue e fingir que tudo o que desabafei aqui e aprendi não existiu. Quis abrir a caixa de Pandora e agora não a consigo fechar. (Se calhar tinha mesmo que o fazer. Se calhar até estou a gostar do que lá vi... )

Talvez ainda não tenha entendido, ou melhor interiorizado, que toda a conquista tem o seu preço.
Talvez esta minha conversa parva seja o reflexo da tomada de consciência do preço a pagar por algo que decida!

Abraço

The Unfurry Swear Bear disse...

Socrates: há uma diferença entre condicionamento classico ou operante, psiticismo e aprendizagem como nós humanos a entendemos, em que os conceitos que vamos aprendendo se misturam com o que já sabemos para formar uma nova linha de pensamento.
Um gato nunca deixa de afiar as unhas, mesmo que façam aquela operação horrivel de remover as garras como acontece por vezes nos estados unidos, e até aqui, feito por veterinários poucos escrupulosos, eles continuam a "afiar" os dedinhos até sangrarem. Eles não aprendem a deixar de o fazer, é o instinto...

The Unfurry Swear Bear disse...

ooops não tinha lido o resto da resposta que se me dirigia hahaha
Eu não digo que sou guloso e não consigo parar de comer, tomei a decisão de comer o que bem me apetece, como a maior parte dos gordos e gordinhos como eu fazem (e a bulimia e outros casos de tiroide são excepções como há muitas no ser humano), se a maioria dos gordos e gordinhos etc admitiam que simplesmente gostam de comer.
Claro que uma criança que tem uma mãe que está constantemente a olhar para o espelho a dizer "estou demasiado gorda" " ai que não posso comer isto ou aquilo" vai influênciar a criança como é obvio, nunca disse o contrário, mas eu estava a falar de diferenças entre animal e humano, não estava a dar regras gerais sobre como os humanos se comportam, na minha primeira frase digo que o ser humano é um ser BIOSOCIOCULTURAL, é um ser biológico que cresce numa sociedade e é afectado por essa e pela cultura em que cresce. Mas não pode culpar a natureza de tudo.

A orientação sexual ainda é uma caracteristica em estudo, muitos estudos revelam que tem uma profunda raiz biológica, outros revocam a teoria de ser genético mas supostamente seria o nivel hormonal no utero da mãe. Mas que seja ou não biológica, não interessa, o que interessa é que é uma caracteristica da pessoa, não é mudavel, não é uma doença, é somente isso uma caracteristica; é por isso que não referi a orientação sexual na minha resposta inicial, porque não se sabe "quase" nada acerca das suas causas. (mesmo se pessoalmente acredito mais numa teoria biológica).

Se leres o meu primeiro comentário novamente vais ver que concordo plenamente contigo, é por uma pessoa ser sociocultural que se aprisona a si próprio, achas que o escorpião se iria preocupar com o sexo do parceiro ou simplesmente ia "foder" com que lhe apetecia sem a minima preocupação? seguindo o seu instinto...

The Unfurry Swear Bear disse...

esqueço me de tudo com tanta conversa, e com um gato que não deixa de me morder os pés haha

mais abraços e não te preocupes muito com o que vou escrevendo, chega a um certo ponto perco me completamente e dá nisto haha

Socrates daSilva disse...

Unfurry,
Primeiro, obrigado pela paciência de leres esta minha conversa fiada e te dares ao trabalho de responderes. (Tens um lugarzinho no céu de certeza…)
Depois, obrigado pela resposta em si. É de facto verdade o que dizes. Eu é que tenho que exteriorizar algumas expressões de “revolta” contra a vida, e aqui é um bom local.
Por fim, festinhas para o teu gatito!
Abraço

Tongzhi disse...

Já reparaste na "corrente" que criaste?
E ainda há quem diga que as conversas não são como as cerejas...
Gostaria apenas de referir que por vezes sentimos a pouca liberdade por não estarmos preparados para "rasgos mais arrojados"...
Num contexto de sociedade em que vivemos, há que seguir, mesmo contrariado, algumas "regras" estabelecidas.

Socrates daSilva disse...

Tongzhi,
Se algo que me tem impressionado no tempo que tenho este blogue é isso que definiste como “corrente”. É sentir que, apesar de nunca ter conhecido pessoalmente ninguém que dá comentários aqui, existe sensibilidade e preocupação. Seja o que eu fizer no futuro, este tempo aqui é um capítulo marcante da minha vida.
Obrigado! Abraço

Ophiuchus disse...

Sócrates, pensa o que podes pensar, faz o que tens para fazer, sente o que há para sentir! E sempre podes escolher(menos a última)!

Eu escorpio por aqui. Um grande abraço!

Socrates daSilva disse...

Ophiuchus,
Um abraço tem mesmo muito valor nesta altura. Cada um tem que cuidar das suas responsabilidades, cada um tem que caminhar pelo seu pé. Mas é bom saber que não se está só. Neste aspecto da minha vida, isso é recente. E está a saber muito bem. É a parte boa da dor!
Abraço!

Paulo disse...

liberdade total? enfim, nunca acreditei muito nisso porque somos sempre condicionados pela envolvência, pelo contexto (família, amigos, trabalho, vizinhos...).
opções, deixa-me ver, restringem-se a muitos campos, excepto ao do SER, embora possamos optar por sermos genuínos, desviarmo-nos... sei lá. mas em todos os casos, a opção é sempre condicionada e afecta-nos, tem consequências mais ou menos directas e óbvias. não sei se será possível ver com acuidade qual será a melhor opção em todos os momentos e em todos os caminhos, mas acredito mesmo que o melhor é sermos nós próprios sempre, mas sobretudo nesses momentos decisivos. no fundo, é assumir tudo aquilo com que nascemos, a bem da nossa felicidade.

um grande abraço, mestre.

enginethrobs disse...

Eu acho que o importante é sermos nós próprios e encontramos o nosso caminho; pelos vistos, o escorpião tem um caminho fácil/básico...
Por outro lado, o Homem "parece" que tem uma maior capacidade de assumir papeis... daí ter de percorrer um maior caminho até encontrar-se: no caso do Mestre, ele cumpriu a sua natureza à terceira vez.

Mas não se deve correr o risco de generalizar... se há homens que evoluem/escolher, há outros que não...

Eu acho que a resposta certa é a mistura das duas: dentro das nossas características dadas, temos um leque de opções...

Socrates daSilva disse...

Enginethrobs,
Primeiro, obrigado pela tua visita e comentário.
Segundo, gostei da tua conclusão:
"dentro das nossas características dadas, temos um leque de opções..."
Creio que cada vez mais concordo com essa afirmação.
Abraço