quinta-feira, 12 de março de 2009

Foi na Alemanha, mas também pode assistir a um num monitor perto de si

A notícia do massacre perpetrado na Alemanha por um rapaz de 17 anos, levou-me a recordar algo que tinha em mente, um dia destes, compartilhar aqui. Tratou-se de uma determinada situação que, quando a presenciei, perturbou-me, tal como aqueles pequenos e repentinos enjoos que nos fazem parar, esticar cegamente o braço para sentir um apoio e perscrutar rapidamente algo parecido com um banco para nos sentarmos por uns instantes.

O local em causa é a sala da internet sita na Biblioteca Municipal. É eficientemente bonita, bem equipada, e normalmente cheia de jovens em idade escolar. Enquanto espero uns poucos minutos por uma vaga, observo de relance os monitores. Poucos estão a estudar, a fazer pesquisas ou a consultar a sua caixa de e-mails. Jogos. Simplesmente a jogar on-line.


(“E qual é o problema?” - autocensuro-me. Lembro-me de que também gosto de perder tempo a jogar; aqui os pobrezitos simplesmente estão a aproveitar o tempo depois da escola e antes de irem para casa, onde farão os trabalhos de casa e estarão com os pais. “Deixa lá de ser um cota rezingão!” - repito de mim para mim.)


Indicam-me o computador 8. Lá vou. Aqui não existe privacidade; é um local público e não está preparado para navegar em páginas, digamos, mais reservadas. Tudo bem, na maior! Enquanto espero pela abertura das minhas páginas, olho, como quem não quer a coisa, para o monitor vizinho ocupado por um pré-adolescente - a jogar, para não fugir à regra. Fixo a minha atenção um pouco mais no jogo onde está embrenhado. Não é por ser um jogo de guerra; isso já não é nenhuma novidade.

Simplesmente fico aluado perante os detalhes do jogo. Neste, em particular, não oferecerem ao jogador apenas realísticos equipamentos e cenários; oferecem-lhe, como o esplendor possível, todos os requintados detalhes que acompanham um intenso massacre. A perfeição do sangue espalhado na parede após o disparo, a visão do corpo mutilado e retalhado após o projéctil ter feito o seu trabalho; as expressões agonizantes da vítima, antes e depois do disparo. E, tem que ser um jogador empenhado, pois níveis mais desafiadores esperam os audazes. Claro que sempre existe a dificuldade acrescida de se acumular corpos nas ruas.


Acordo. A minha atenção fixa-se agora nos jogadores reais. É interessante ver os petizes a sorrirem de prazer ao acumularem pontos conquistados em assassinatos virtuais. E, virarem-se para outros colegas, nos outros computadores, e a orgulharem-se, em alto e bom som, dos troféus de guerra já conseguidos. Para ser fiel ao que escuto e para reproduzir exactamente as referidas conversas teria que incluir as expressões “matei-os todos”, “despedacei-o” e “dei-lhe cabo da cabeça toda”, entre outras pérolas.

Volto-me para o meu monitor, e trato da minha vida. O enjoo chegou, ainda bem que estou sentado.


Por favor, não me digam que isto é normal; não me chamem retrógrado por ficar espantado; não invoquem a necessidade de eles gastarem testosterona; não comparem isto com as guerras de índios e cowboys que tínhamos nas ruas usando pistolas de pau. 

Não vou ao extremo de acreditar que estes miúdos quando saírem do jogo vão matar alguém na rua ou em casa. Sei que muitas pessoas adultas gostam deste tipo de jogos e não têm inclinações assassinas. Sei que não existe uma relação matemática entre o tempo que se gasta nestes jogos e os assassinatos cometidos cada dia.

Mas, também não me digam que este jogos são completamente inócuos. Dizer que não fazem absolutamente nenhum mal às cabecinhas das crianças é como dizer que os jogos pedagógicos também não servem absolutamente para nada de positivo. O que tem poder para construir também pode destruir. O que pode ajudar também pode prejudicar.

O que me choca é achar-se normal passar a mensagem – mais ou menos subliminar - a jovens em formação, de que o massacre virtual de outros humanos é um desporto onde até se pode ser campeão. O que me deixa a pensar é se não estamos a dar-lhes acriticamente um conceito do pouco valor da vida humana. O que me faz sentir um aperto no peito é que se fosse um jogo onde se massacrassem animais talvez mais gente se indignasse do que um onde se esmigalha – literalmente - seres humanos virtuais.

Desculpem a minha ingenuidade, decerto estou a reflectir um popular conceito empírico, em que falta a análise profissional de investigadores da mente e do comportamento humano. Mas, é culpa do enjoo.

(Estou sentado, já passa…)

11 comentários:

Daniel Silva disse...

Estou completamente, mas completamente de acordo. E o pior é que isto não é novo e continua assim. Obviamente que fomenta (ainda por cima em idades onde o cérebro está maleável como o cimento) a atitudes inconscencializadas mas reais de potenciais agressores, ainda que verbais... ou nao...

Moi disse...

O que isto levanta do nosso inconsciente mais animal e esta repetição no "passar de nível", que torna banal qualquer massacre na (pouca) humanidade investida nestes jovens, nestas máquinas de matar...

Abraço firme.

pinguim disse...

Eu tenho medo, tenho mesmo medo do que se está a passar no mundo juvenil de hoje; claro que não sou estúpido para estar a generalizar, mas o exemplo que apontas, numa cidade do interior, que conheço bem, pois é a minha, assusta-me!
E, como tu dizes de ti próprio, não sou retrógrado; sou apenas consciente dos perigos que espreitam este mundo "moderno"...
Abraço.

Kapitão Kaus disse...

Olha, eu não conhecia essa realidade que tu retratas aqui.
Nunca, na minha infância, houve dinheiro para esses jogos e à internet só lhe tive acesso na idade adulta.
Temo muito acerca do nosso futuro colectivo. Sim, porque estes jovens são os que amanhã irão decidir e reorganizar o mundo...

Abraço:)

Violeta disse...

Socrates
naõ é por acaso que eles chegam aos massacres. E todos somos responsáveis...
Muito bem escrito o teu post.
Bom fim de semana.

The Unfurry Swear Bear disse...

Eu cresci no meio dos jogos, e tenho de admitir que continuo a jogar sempre que tenho um momentinho, e nos anos 80, com 10 anos já jogava, não me tornei por isso num assassino em série.
Eu acho que mais que violencia nos jogos, há violencia nas escolas, violencias psicologica contra certos alunos.
Alguns alunos são os que são sempre as vitimas, e os professores, porteiros, e funcionários, todos sabem quais são os abusadores e quais são os abusados, por vezes por escolas inteiras...
Eu sei, eu senti isso no ano em que estudei no alentejo, falava português de maneira esquesita, era um aluno novo, menino de cidade, tinha uma escola inteira a chamar me nomes "agradaveis" pela cidade. O director da escola passava por mim enquanto estava a ser violentado por uns 10 alunos e virava a cara para o outro lado.
Não, os jogos não são o problemas, desde cedo que sabemos a diferença entre jogos e realidade... e a minha realidade assim como a de muitos jovens não era um jogo.
E para um jovem chegar a este ponto, não é porque andou aos tiros num jogo...

Tongzhi disse...

Esta questão que levantas é bastante pertinente. Contudo, não há evidência, em termos de investigação, de haver correlação entre o uso, abusivo, desse tipo de jogos e comportamentos agressivos.
Compara um pouco esta situação com as histórias de fadas más, madrastas, e fantasmas que foram tão contestadas.
Não quero com isto dizer que aprovo a sua utilização, bem pelo contrário.

free_soul disse...

Como pensas tanto como eu... pensar em cada um dos jovens com quem trabalho como vitimas de tais massacres mas tambem pensar neles como possiveis agressores...esta ultima parte quase ninguem pensa!!!
E se o meu filho fosse o agressor? Só se pensa e se fosse o meu filho ali morto ou agredido...
Um beijo

Socrates daSilva disse...

(Devido ao comentário do Unfurry ter-me sensibilizado, vou responder-lhe em primeiro lugar.)

Amigo,
Apreciei a franqueza do teu comentário. Desta vez aconteceu na Alemanha, mas desgraçadamente, são notícias que de vez em quando, se vão tornando frequentes.
Como escrevi no meu post, também não sou adepto da ideia de que o simples facto de alguém jogar um jogo virtual de guerra o vai tornar automaticamente um assassino. Acho que isso ficou claro.
Entendo a complexidade dos motivos que podem impelir um jovem a assassinar a sangue frio colegas e quem mais se lhe atravessou á frente. Não tenho pretensões, nem sequer habilitações para esclarecer devidamente o assunto.
Apenas evoco a angústia de quem observa estes episódios encravados no correr da vida e procura ler, escutar e aprender para reflectir. Quando decidi fazer uma associação com a naturalidade com que vejo outros envolvem-se em jogos marcadamente violentos e sanguinários apenas decidi elaborar um pequeno ponto de reflexão sobre o tema.

Creio que não sendo determinante para alguém decidir matar outros, pode ser um dos factores, entre outros, que diminuiu a sensibilidade, cada vez mais emergente, perante a vida humana. Mas, sendo um tema complexo, deve ser falado e debatido por todos os ângulos.

Termino por dizer que entendo o que passaste ao ser humilhado por colegas de escola; entendo a revolta perante a indiferença dos adultos que assistiam; entendo os sentimentos que acumulaste. Se digo que entendo não é apenas por empatia. É porque em certas alturas da minha infância e adolescência também passei por isso, e de uma maneira bem cruel. Ainda hoje sinto os seus efeitos e já passou muito tempo!

Mais uma vez, bem hajas pela tua visita e comentários. Um abraço!


Daniel,
O ponto que me preocupa é a promoção de uma cultura de agressão como divertimento.

Abraço!


Moi,
É verdade que já nascemos e crescemos com uma propensão para a agressividade - mas caramba! - com o nível de civilização que atingimos, bem poderíamos privilegiar uma educação que tente resolver essa questão.

Abraço!


Pinguim,
Hoje já não faz diferença o que se passa nas grandes metrópoles e nos vilarejos mais pacatos. É o conceito de “aldeia global” para o mal e o bem.

Abraço!


Kapitão Kaus,
Eu também me revejo nesses tempos de infância que descreves. Mas, observo o que se passa com essa mesma preocupação. Mas, penso que hoje os menos culpados são os jovens. Quem os educa – todos nós, não apenas os pais e professores – é que tem a “culpa”. Que modelos e “regras” estamos a fornecer-lhes?
Abraço!


Violeta,
Existem muitas razões. Temos que falar delas sempre e não apenas quando choramos coisas desgraçadas como estas.

Bem hajas.
Bjs


Tongzhi,
Concordo. Essa associação que faço é apenas uma reflexão. Pode ter a haver, mas não explica tudo.
Abraço!


Free_soul,
Esse é um cenário muito interessante que não me tinha ocorrido. A questão é que, como li nas notícias, este rapaz até era pacato e ninguém lhe atribuía um perfil correspondente ao que fez. Por isso é tão importante valorizar a boa comunicação entre pais e filhos. Não apenas pensar que se tem um filho a quem não falta nada. Os pais têm mesmo que investir em ser amigos dos filhos.

Bjs

No Limite do Oceano disse...

Apesar de não ter a mínima paciência para jogos, e de não estar por dentro dos jogos de "guerra" a violência que se vê nesse tipo de passatempos além de ser gratuita, pode dominar as falhas que certas pessoas possam ter. No caso dos adolescentes, já fui um, e não perdia tempo nesse tipo de coisas, e se bem me lembro, o último jogo que joguei foi "Age of Empires" (se não estou em erro)que tinha violência mas não do tipo que há nos de hoje.

*Hugs n' smiles*
Carlos

Socrates daSilva disse...

Carlos,

Age of Empires?
:-)
Olha eu também andei uns tempos nisso, junto com o Sim City...

Abraço!